"Shut your raggedy-ass up, and sit the fuck down!"
Reza a história que quando Pam Grier entrou no gabinete de Quentin Tarantino para uma audição de Pulp Fiction esse gabinete estava forrado de cartazes de filmes de Pam, da sua época como rainha do blaxploitation.
Não seria em Pulp Fiction mas sim em Jackie Brown que Tarantino a recuperaria, um filme quase feito só para si. O filme é adaptado da obra de Elmore Leonard, Rum Punch e no livro a personagem chama-se Jackie Burke e é branca, tendo Tarantino alterado o nome como homenagem a uma personagem/filme de Grier, Foxy Brown.
Depois, esta é uma mulher que parecia à partida a personagem mais frágil da história mas dá a volta por cima, engana tudo e todos para sair vencedora.
Quando li o convite da Sofia fiquei a reflectir sobre os vários papeis assumidos pela Mulher, não só no cinema, mas na História, na vida. Foquei-me num dos que mais interesse e fascínio me suscita: a Mulher enquanto símbolo de beleza e sensualidade. Estamos a falar de algo que vem desde os primórdios dos tempos, não são, afinal de contas, os deuses do amor e da beleza associados ao género feminino? Afrodite para os Gregos, Vénus para os Romanos ou Freyja para os nórdicos? No entanto, este é um tema amplamente explorado e que certamente será referenciado neste desafio mais do que uma vez, por isso quis ser mais selectivo na forma como o abordaria e assim sendo juntei-o a outro, ao da ligação entre o Homem e o Animal.
A relação entre Homem e Animal é um conceito que sempre nos intrigou. Essa aproximação do ser Humano ao seu lado selvagem ou, no sentido inverso, a racionalização dos animais, são temas que desde cedo fizeram parte da nossa cultura. Voltando aos deuses, no antigo Egipto estes eram retratados por terem corpo de Homem e cabeça de animal. Posteriormente, quem não se lembra de criaturas fantásticas como os centauros ou o minotauro provenientes da mitologia grega? Nos dias de hoje, algumas destas criaturas ainda mantêm uma presença muito forte, como é o caso dos Vampiros (ainda que o mito não tenha nascido a partir do mamífero voador) e dos Lobisomens. No caso da humanização dos animais o “Triunfo dos Porcos” ou “O Planeta dos Macacos” são duas obras que certamente todos conhecerão também.
Nastassja Kinski
Em relação à exploração do lado animal no Homem há qualquer coisa de libertador nessa relação. Esta mistura entre Homem e Besta resulta normalmente numa maior aproximação ao nosso lado selvagem, “animal”, que por conseguinte nos afasta das nossas “amarras” morais e sociais, ou seja, da nossa racionalização. No caso dos clássicos Vampiros ou Lobisomens, existe por norma um qualquer tipo de maldição que em certa medida desculpa os seus actos, gerando ao Homem em questão um conflito interior entre os seus dois lados. Por vezes esta ligação pode ter uma forte simbologia sexual, no caso dos vampiros é algo que, pelo menos desde o livro do Bram Stoker, é focado. Se bem que no caso de “Dracula” havia toda uma sexualidade reprimida que se libertava no acto da alimentação, quando o vampiro bebia o sangue da sua vítima, quando esta se entregava ao seu predador. Hoje em dia se virmos séries como “True Blood” vemos que a sexualidade assumiu contornos mais explícitos e directos.
Nastassja Kinski em “Cat People” (1982)
Tudo isto me conduziu a “Cat People” de Paul Schrader, o remake de 1982. Na personagem de Nastassja Kinski (Irena) temos a utilização da mulher como símbolo de sensualidade e, também, a sua ligação ao seu lado animal, neste caso, um felino, uma pantera negra. Irena vem de um povo que sofre de uma terrível condição, sempre que se entregam aos seus prazeres carnais transformam-se em leopardos e a única forma de regressarem à forma humana é matando. Irena começa por ser retratada como a jovem pura e virgem, mas que com o tempo começa cada vez mais a lutar contra os seus impulsos sexuais, cuja intensidade aumentam à medida que se aproxima de Oliver (John Heard). A cedência a esses impulsos corresponde à cedência ao nosso lado animal, que aqui é levado ao sentido literal. Quando Irena tiver relações sexuais a pantera que há dentro de si será, finalmente, libertada e com isso as consequências, que se preveem sangrentas e letais. O tema principal do filme ficou a cargo de David Bowie e consegue reunir o tom sensual e negro do filme de Schrader. Uma das maiores canções do autor que ainda hoje é recordada com entusiasmo.
Simone Simon
em “Cat People” (1942)
Mas, voltando ao filme, porquê a escolha de um leopardo? De facto os felinos são dos animais mais elegantes a pisar a Terra e o facto de Irena se transformar numa criatura perigosa, aumenta a carga erótica, novamente, veja-se o caso dos vampiros e dos lobisomens. No filme original de 1942 - com o mesmo título - a escolha do leopardo parece ser oriunda da Bíblia, por este ser um animal associado ao demónio, o que não tem de estar afastado de conceitos de sensualidade, uma vez que o diabo é de certa forma o primeiro sedutor. Contudo, ainda que a simbologia sexual esteja presente, a carga erótica é muito menor no filme de Jacques Tourneur, pois este não se debruça tanto sobre os apetites sexuais como o remake. Na versão original Irena está também amaldiçoada, condenada a nunca se poder entregar ao homem que ama, mas apenas cede ao seu lado animal quando se entrega ao ciúme. Um filme de baixo orçamento que prima pela sua realização, principalmente nos momentos de suspense, muito bem conseguidos com a utilização do som e de jogos de sombras.
Batman e Catwoman
Podia concluir o meu texto agora. Escolhi a personagem interpretada por Nastassja Kinski, para focar a mulher enquanto símbolo de sensualidade e perigo, bem como a sua relação ao seu lado animal. Porém, gostaria de aprofundar ainda mais o tema e tentar justificar que a escolha de felinos para associar a mulheres cuja sensualidade é forte, não se trata de um acaso. É verdade que no filme em questão tanto Irena como seu irmão Paul (Malcom Mcdowell) são leopardos, contudo é em Irena que se concentra a maior carga de sensualidade. Atente-se agora na Banda Desenhada a personagens como Catwoman (1940) e Black Cat (1979). São ambas personagens perigosas e sensuais que usam como símbolo o gato, novamente o felino (há mais). Em relação à primeira a preocupação de Bob Kane e Bill finger era a de trazer uma personagem sensual para o universo Batman, alguém que fosse tanto um oponente como um interesse amoroso, ou seja, alguém que contivesse uma carga tanto erótica como ameaçadora, e daí surge-nos Selina Kyle. “Black Cat” surge mais tarde na Marvel e é claramente inspirada na primeira, da DC, sendo apenas um interesse amoroso do Spider-Man ao invés do Batman.
Spider-Man e Black Cat
Só por estes exemplos dá para ver que a ligação da mulher aos felinos tem ocorrido mais do que uma vez na ficção. O que me remete para o episódio “Lulu Grandiron” de “Nip/Tuck”, onde uma mulher pretende receber cirurgia plástica para incorporar elementos felinos na sua face. Ela crê na existência daquilo que podemos apelidar de uma beleza felina. Mais tarde provou-se que a senhora se tratava de uma doente mental, ainda assim não posso deixar de pensar que existe de facto uma beleza felina, pois lembro-me sempre disso quando vejo “Batman Returns” de Tim Burton. Ou estou a ser influenciado pela personagem do filme, ou não é Michell Pfeifer a escolha ideal para Catwoman, por possuir naturalmente esse tipo de beleza e sensualidade?
Michelle
Pfeiffer como Catwoman em “Batman Returns”
Para não me alongar muito mais, vamos dar um salto gigante no tempo e visitar o antigo Egipto, que me parece ser o local onde nasce a ligação da sexualidade feminina aos felinos. No panteão de deuses egípcios existe uma deusa de corpo de mulher e cabeça de gato, cujo nome é Bastet.
Bastet
Inicialmente Bastet era retratada com cabeça de leoa e venerada como uma deusa protectora. Contudo, quando ocorreu a unificação entre o alto e o baixo Egipto, alguns dos deuses foram fundidos devido às semelhanças entre si, algo que poderia ter ocorrido com Bastet por causa de uma outra deusa guerreira e de cabeça de leoa chamada Sekhmet. Ambas as deusas mantiveram o seu culto graças à importância que detinham no seu povo, porém Bastet ficou remetida a um papel menor e que sofreria alterações ao longo do tempo, ficando eventualmente associada como sendo a mãe do baixo Egipto.
Os gatos no antigo Egipto eram animais tidos em grande consideração, por serem muito eficazes a caçar ratos e cobras. Prova disso é que gatos pertencentes à realeza eram vestidos em jóias e alguns até mumificados após a morte. No primeiro milénio A.C., numa altura em que os gatos se tornaram muito populares como animais de estimação, Bastet começou a ser representada como uma mulher de cabeça de gato. Como podemos ver o culto do gato não surge, inicialmente, por questões sensuais ou eróticas. De qualquer das formas com o passar do tempo Bastet foi ficando cada vez mais associada a um papel de fertilidade e de prazer. Era também a deusa dos perfumes, a dada altura.
Anúbis e Bastet no filme “Immortel”, a adaptaçao da BD “Trilogia Nikopol”. Ambos de Enki Bilal.
O facto de ter sido associada a mais do que um marido e a uma série de parceiros sexuais, incluindo deusas também, são factores que poderão ter contribuido fortemente para a sua reputação de deusa do prazer. Os seus rituais eram conhecidos pela sua sensualidade e erotismo. Alguns referem que as primeiras strippers surgiram nos rituais de Bast, e que estes rituais foram percursores de festas como o Carnaval.
Bastet representada em The Sandman de Neil Gaiman
Como é normal, quando falamos de uma cultura antiga, nem todos partilham da mesma opinião em alguns aspectos desta deusa. Porém, uma coisa é certa, e essa é a influência que Bastet teve na cultura popular como símbolo de sensualidade e fertilidade, criando ligações entre a beleza feminina e felina. Retratos posteriores da deusa provam-no bem, como podemos ver na“Trilogia Nikopol” de Enki Bilal ou mais fortemente ainda, em “The Sandman” de Neil Gaiman onde é referido que Bast teve relações com o próprio Sandman, entre outros.
Irena e a estátua de Anúbis em “Cat People” (1942)
Por tudo isto creio que há uma ligação entre a sensualidade feminina e os felinos que nasce na deusa Bastet. É de certa forma a mãe dos “Cat People”, algo que poderá terá ter sido sugestionado no filme de 1942 quando, durante uma exposição, Irena pára ao lado de uma estátua de Anúbis - um dos maridos de Bastet.
Falar em Pedro Almodóvar sem falar na Mulher é praticamente impossível. A sua carreira e a sua filmografia são virtualmente indissociáveis da figura feminina, sendo provavelmente este o cineasta que melhor filma a Mulher. Ali a Mulher é a mais real, a mais bonita, a mais (im)perfeita, a mais humana. Mas se tivesse de escolher uma (na sua filmografia, bem como no cinema em geral) teria de ser a personagem Manuela, interpretada pela actriz espanhola Cecilia Roth, no filme Todo sobre mi madre (1999).
Todo sobre mi madre é também ele um filme eminentemente feminino. E Manuela é a síntese da figura feminina no seu cinema e na vida, enquanto Mulher e Mãe. Ali, enquanto enfrenta o luto através da exorcização da dor, Manuela encarna A Mulher e recria o amor incondicional: aquele que sobrevive mesmo após a morte. Manuela morre no início do filme para depois renascer no seu fim. E e o seu percurso de vida é uma dedicatória à condição feminina, personificando a Mulher como a figura imperfeita que é, mas repleta de força, dedicação e Amor. Poucas tornaram a Mulher tão belamente realista assim.
Filme (documentário): A Ilha de Moraes. Mulheres: Ó-Yoné, Ko-haru (IMDb)
Viva, em primeiro lugar e antes de referir qual o filme que escolhi, queria de certa forma justificar um pouco a minha escolha. Como primeiro pensamento, tentei fugir ao mercado comercial e cingir-me a filmes de outros tempos, menos main-stream. Podia ter escolhido a Medeia do Pasolini, um das loiras do Hitchcock ou uma das mulheres do Woody Allen, contudo desloquei-me ao Japão para escolher a obra de um português, porque temos que valorizar aquilo que é nosso e um autor que está esquecido por muitos. Falo de Paulo Rocha e do seu documentário, A ilha de Moraes. Os que viram, já devem saber certamente porque o escolhi, apesar de ter sido realizado por um homem e sobre um homem (Venceslau de Moraes). Os que não viram, vou-vos tirar as dúvidas, não escolhi uma, mas sim duas mulheres, as duas mulheres de Venceslau de Morais que foi um escritor de nacionalidade que viveu grande parte da sua vida no Japão, por causa (não num sentido maldoso) de duas mulheres. Ó-Yoné, a sua primeira mulher japonesa (já tinha sido casado antes com uma chinesa) e Ko-haru, a segunda, ambas com personalidades totalmente diferentes, talvez por isso o tenham marcado tanto. Ao ver o filme, lembrei-me de uma frase do Truffaut que dizia algo como um filme sem mulheres é um filme triste, também a vida de Venceslau teria sido uma vida mais triste, não fosse Ko-haru e Ó-Yoné. Ko-haru era uma mulher mais imprevisível, uma mulher de mais sangue quente, enquanto que Ó-Yoné, uma mulher mais simples, mais calma e talvez mais tímida. Pode soar mal aquilo que vou dizer, mas com a morte de Ó-Yoné, só outra mulher poderia ter levantado Morais do chão, Ko-haru, curiosamente sobrinha da falecida Ó-Yoné. Mas voltando ás personalidades das duas japonesas, a dado momento a mulher que acompanha Paulo Rocha no seu documentário, o seu nome era Ekiji, senão estou em erro, uma mulher que quando era criança conheceu Venceslau e via o seu quotidiano, pergunta a Paulo se preferia uma Ó-Yoné ou uma Ko-haru. Paulo Rocha com alguma hesitação escolheu Ko-haru, o que surpreendeu Ekiji. Digo isto em jeito de conclusão porque todos nós precisamos das nossas Ko-harus e das nossas Ó-Yonés.
Finalmente, queria pedir desculpa por ter “masculinizado” um pouco a conversa, mas a verdade é que Venceslau de Moraes, nunca teria sido o escritor que foi sem Ko-haru e Ó-Yoné, que sentia tanto a sua falta que lhes dedicou o tempo de vida que ainda lhe restava para poder ir ter os dias ao seus túmulos, elas que tinham as suas campas lado-a-lado, não porque Venceslau era dono delas ou elas lhe eram subservientes mas porque Venceslau as valorizou da melhor maneira que pôde, nunca as deixando esquecer mesmo após a morte que elas foram as suas fieis companheiras.
Assim concluo a minha participação nesta iniciativa, bastante louvável e que certamente merecerá ser acompanhada. Obrigado Sofia pelo convite.
Fotobiografia de Wenceslau de Moraes. Cherry Blossom at Noge Hill, Yokohama. Kobe, 28 de Fevereiro de 1910 – Bilhete postal enviado por Wenceslau de Moraes para Maria Joaquina Campos, Lisboa.
Defendia Godard que Howard Hawks, por não compreender a diferença entre sexos, rejeitava o uso tradicional do campo-contra-campo. Aliás, a questão nem seria tanto a falta de compreensão de Hawks, mas antes o entendimento que as (supostas) diferenças geralmente atribuídas a homens e mulheres não seriam categoricamente determinantes - ou até mesmo impeditivas - para a narrativa enquanto unidade. Porventura por essa razão, as relações entre personagens sejam um dos principais objectos de estudo do seu Cinema, com o próprio realizador - «I'd say that everybody has seen every plot twenty times. What they haven't seen is characters and their relation to one another. I don't worry much about plot anymore.» - a admitir a tendência. E poucas personagens hawksianas subvertem tão habilmente o género como Vivan Rutledge, a femme fatale de THE BIG SLEEP.
Bela e sedutora, a primeira vez que surge em cena mostra logo a Marlowe - Humphrey Bogart, cool como sempre - quem manda ali. Literalmente. Minutos depois é o pai a revelar ao detective privado que a filha - em oposição à irmã mais nova, uma criança mimada - é cínica e manipuladora. O próprio argumento acaba por colocá-la no mesmo patamar dos homens - joga, pragueja e bebe -, turvando as águas já por si lamacentas da ética de hawksiana. No fundo, joga-se ao sexo mais forte, colocando Bacall a desafiar os homens com o seu à vontade característico.
Ser a femme fatale do mais críptico dos films noir - THE BIG SLEEP é uma das obras mais difíceis de reproduzir mentalmente, tais as curvas e contracurvas no seu argumento, indecifrável até para Faulkner e Chandler - já seria de si uma proeza merecedora de destaque. Mas ainda mais interessante será, talvez, a insistência de Hawks - e lá voltamos nós ao que Godard afirmava - em colocar Bacall e Bogart no mesmo plano. A divisão de enquadramentos pelo casal é um dos primeiros indícios de igualdade sexual no Cinema de Hollywood, ainda que algo discreto e pouco desenvolvido. Daí que Bacall, ao mostrar-se capaz de se movimentar num meio predominantemente masculino - como o film noir o era -, seja tão importante na quebra com uma mentalidade antiga e ultrapassada.
Antes de discorrer livremente sobre a Mulher do título e, antes de vermos onde é que isto vai dar, deixem-me introduzir o motivo que aqui me trouxe, além, do óbvio e fofinho convite da Sofia Santos. Cutxi, cutxi. Correndo o risco de me assemelhar a uma feminista empedernida acredito que ainda há muito por fazer no campo da emancipação do Mulher. E o cinema funciona tanto como ficção como reflexo da sociedade que o produz. Não sou apologista da glorificação de mulheres pisadas, magoadas e, enfim, quebradas no cinema. Sobretudo a violência sexual, choca-me. Mas também não quero com isso afirmar que as mulheres devem surgir em cena sempre como umas vencedoras. Isso seria uma mentira e não serviria a 7ª Arte. As mulheres sofrem. O tratamento que é dado a tais situações é que me deixa bastante ambivalente quanto a filmes como “I spit on your grave” (1978) “The Last house on the Left” (1972) e, generalizando, o género sexploitation. (Acho que já afugentei algumas alminhas com esta minha confissão). Perdoem-me se não acredito que o objectivo dessas obras é “demonstrar a luta das mulheres contra os seus perseguidores”. Senti, desde sempre, que a longa exposição das cenas de abuso físico e psicológico, que chegava a ocupar 30 minutos de filme e procurava apelar à parcela de indivíduos da audiência com fantasias do género. (Acabei de ofender outras tantas almas). Agora, não me venham com m***** feministas onde uma mulher que é espancada até ficar numa polpa de sangue, violentada de todas maneiras e feitios vira mega-cabra que utiliza o sexo que lhe quiseram tomar para prostrar os que a feriram. Fico com ganas de fúria homicida quando me vêm com o “discurso”. É uma questão de sexo, ponto. Apesar de ser fã de finais felizes e de positividade escolhi abordar “Bedevilled” e a sua personagem principal. É uma das obras mais gráficas que vi nos últimos anos, no que toca à exploração da Mulher e que exemplifica o melhor e o pior do género, com todos os exageros cinematográficos associados. Por isso, vou tentar, através de uma abordagem mais extensa expor e contextualizar os motivos individuais, societais, culturais e religiosos por trás de uma obra do género e não apenas a herança cinematográfica. ATENÇÃO SPOILERS: A partir daqui leiam por vossa conta e risco.
“Bedevilled” é a estória de duas amigas nascidas numa pequena ilha ao largo da Coreia do sul. A elegante Hae-won (Seong-won Ji) vive num apartamento próprio em Seul. A tez delicada e a sofisticação não chegam para esconder um feitio irascível que ainda não lhe trouxe consequências mais graves do que uma vida solitária. Bok-nam (Young-hie Seo) não teve a mesma sorte. Ela é uma prisioneira na ilha onde sofre silenciosa. Ela trabalha de sol a sol, escravizada pelas “tias”, um conjunto de velhas decrépitas com pouco mais que fazer do que passar os dias a enumerar os defeitos de Bok-nam e a ter certeza de que ela sabe o seu valor ali: nada. (Começa bem, portanto). À medida que as hárpias desatam a língua ficamos a saber que não se sabe quem é o pai da filha de Bok-nam. Como é óbvio, a culpa é dela, de ter sido abusada por todos os homens da ilha. A porca. A porca que passa os dias a cavar a terra para dar sustento a toda a gente naquela ilha, já que os homens passam os dias a preguiçar ou a fornicar com as pegas que trazem para debaixo do próprio tecto de Bok-nam. E quando não há prostitutas Bok-nam está ali mesmo, ao serviço do homem com mais tesão no momento. Vale tudo. Mas repito ela é que é a porca. Hae-won por via de ter sido obrigada a tirar uns dias de férias do trabalho depois de agredir uma colega regressa à ilha. Ela assiste a todas estas situações e, mesmo tendo sido salva de uma violação no passado por Bok-nam, sabem o que ela faz? Nada. Estão familiarizados com a “solidariedade feminina”? Uma pista: não é isto. Ela passa os dias a assistir e a calar. Nem é capaz de oferecer palavras de conforto a Bok-nam, por que ela é, à superfície assim como de fundo, uma cabra egocêntrica e egoísta. E como se por essa altura não estivéssemos já com uma sensação de revirar entranhas, eis que chega a cereja no topo do bolo: a mais do que leve suspeita de que o “marido” de Bok-nam também está a abusar da menina. Todos podem ali saber disso e ninguém se importa. Hae-won, certamente que não. Perturba, apenas não é nada que valha a pena agir… A sensação de amargura chega ao esófago, já próxima do vómito. A mãe infeliz é a única que luta pela pequena. Apesar de um optimismo profundamente estúpido, quando se convive com “mimos” diários como: “se um porco e um cão aprendem quando lhes batemos por que é que tu não?” ela ainda sonha com a vida na cidade. O amor por Hae-won é puro e desprovido de interesse quando o inverso não é verdade. A amiga de Seul apenas presta atenção a Bok-nam porque esta lhe pode proporcionar conforto no lugar. Quando por fim, o plano de fuga sai gorado e a própria filha acaba morta Bok-nam perde a pouca sanidade que lhe resta e agarra-se a uma fúria homicida. O resto faz parte da lenda dos slashers. Na tradição de outros filmes de vingança sul-coreanos não se preocupem que há gore a rodos. Apenas não sei que tipo de satisfação se poderá encontrar num filme em que todos os personagens são de maus a horríveis e até a abusada Bok-nam gera, no mínimo, sentimentos contraditórios.
“Bedevilled” vive das personagens femininas. São elas que lhe conferem algum tipo de densidade. Todos os personagens masculinos são seres primários, movidos pelos instintos mais básicos. Podemos reduzi-los quase à necessidade de cumprir os desejos do corpo no momento significando isso, comer, sexo, fazer as necessidades… Uns bárbaros. Quem veja este filme pensaria que quem o escreveu (Kwang-young Choi) não gosta muito de homens. Atrevo-me a dizer que ainda gosta menos de mulheres pois elas só servem como objecto ao serviço do homem para as sevícias do momento. Mais, as mulheres, únicas personagens com consciência dos actos atrozes que são cometidos nada fazem contra eles e pior, até os chegam a incentivar! Há três tipos de mulheres em “Bedevilled”: a indiferente, a dominante e a submissa. Cada uma delas tem efeitos perniciosos sobre Bok-nam. Pois se são os homens que lhe fazem mal são as mulheres que a retêm nas trevas. Hae-won faz-se de cega, surda e muda. Critica a apatia de Bok-nam, uma mulher que foi subjugada até à incapacidade de tomar decisões, mas não é capaz de a auxiliar, seja através de conselhos ou de pequenos actos que possam tornar a vida da “amiga” ligeiramente mais agradável. Como pode uma mulher numa vida orientada meramente para o hedonismo ignorando o sofrimento dos outros criticar o que quer que seja? A dominante é uma das velhas, que pode ser intitulada de líder da cabecilha, com noções tão antigas como as de que “a mulher trabalha, a mulher gera filhos, a mulher cede a todas as vontades do homem, a mulher não levanta a mão ou a voz ao homem”. E se quisermos ser mais específicos a Kim Bok-nam é lixo. Criada nas mesmas condições que Bok-nam a “tiazinha” é a maior instigadora do clima de violência vigente na ilha. Agindo como um homem e assemelhando-se a um homem (primeiro que descobrisse que era uma mulher, ui), odeia o próprio sexo. É ela que incentiva o ócio dos homens, ao mesmo tempo que critica a lassidão de Bok-nam. Não há nada que esta última possa fazer para cair nas suas boas graças. E sem nenhuma amiga em quem se apoiar (ela chega ao ponto de criar afinidade pela prostituta a que o marido recorre regularmente), a estória foi contada demasiadas vezes para que Bok-nam a não saiba de cor. A lavagem cerebral foi um sucesso e a ingenuidade natural, a ausência de educação e estímulos exteriores fizeram o resto. Bok-nam é ainda uma vítima da sua própria submissão, muito bem ensinada. Mas não totalmente quebrada, ou não lhe dissessem que até os animais aprendiam excepto ela. Até à morte da filha ainda existia hipótese de salvação. Depois disso, a fúria vem rápido e o pavio arde rápido.
Preze-se o trabalho do argumentista, Kim Bok-nam não é uma personagem ficcional. A personagem tem raízes ancoradas na sociedade em que se insere. Talvez apenas a ilha seja o local ideal para a existência de abuso sistemático e flagrante porque também não existe de quem o esconder. Existem muitas, demasiadas Kim Bok-nam’s por esse mundo fora. Aliás, a igualdade de género não existe. É uma utopia, uma historieta contada de ânimo leve às criancinhas para estas dormirem melhor à noite. Na Europa e EUA já se viu que o falso moralismo é a corrente dominante. Na África e Arábia por via das notícias que nos chegam é o que se sabe. Na Ásia… é um pouco mais complicado. Costumo dizer que o continente asiático que é o mais igual e o mais diferente em todo o mundo. Há paralelos em qualquer parte da terra, mas nunca nada é igual ao que por lá se passa. E alguns países ultradesenvolvidos têm práticas medievais no que diz respeito à Mulher. A Kim bok-nam é o resultado de excessos religiosos e culturais. Na Coreia do sul a religião maioritária é o Budismo, fortemente ancorado nos ideais Confucionistas que, adivinhem, prega a segregação sexual. Até recentemente (séculos apenas), o Homem era considerado superior à Mulher que deveria gerar um herdeiro para propagar a linhagem da família e zelar pela sua educação. O seu lugar era no lar e não deveria tentar ultrapassar o Homem em termos de dinheiro ou sucesso percepcionado pela sociedade. E não foi há muito tempo que as mulheres se começaram a livrar de sentimentos de culpa por terem um emprego ao mesmo tempo que criavam os filhos. As gerações mais antigas da Coreia do sul ainda se encontram bastante arreigadas a estes ideais. A violência doméstica e os crimes sexuais são um problema grave mas a exposição incorre em maior vergonha para a família, pelo que os crimes são muitas vezes silenciados pelas próprias. Assim como fazia Bok-nam, ao mesmo tempo que os outros assobiavam para o lado ou aproveitavam para incorrer em ainda maior abuso.
A última peça para se compreender Bok-nam é a actriz que a interpreta. Por onde quer que passou, Seong-hie foi nomeada ou premiada por este papel. Uma actriz habituada a papéis de mulher sofredora e relegada demasiadas vezes injustamente para papéis secundários. Em “Shadows in The Palace” foi Wol-ryung uma ama vitimizada por possuir um segredo demasiado delicado, em “The Chaser” foi uma prostituta mãe solteira perseguida de modo implacável por um serial-killer, em “Bloody Reunion” era um dos alunos de uma professora que não era, afinal, tão boa como se faria crer. A experiência de Seong-hie foi fundamental para que ver Bok-nam no ecrã fosse tão interessante e ao mesmo tempo penoso. Ela incorpora tão bem personagens sofredoras que pode até ser difícil separar a personagem da actriz.
Kim Bok-nam é antes de atacante uma vítima. Se calhar é apenas uma visão etnocêntrica. Se visse “Bedevilled” noutra região do planeta podia considerar o tratamento desta mulher perfeitamente normal e depois ficar indignada com os actos vis durante os últimos dois terços de filme. Vítima podia até ser uma palavra que não me passasse pela cabeça. Mas, independentemente, do local onde foi realizado e qual o público-alvo “Bedevilled” é um ensaio de violência sobre os que são tidos como mais fracos e onde a percepção de impunidade é utilizada para a prática flagrante de delitos sobre o corpo, a mente, a alma ou o espírito (se acreditarem nessas coisas). Mas, mais importante que isto são as condições que se reúnem para a geração de violência e permitem a sua propagação tais como a apatia de Hae-won. Se nada fizermos, não estaremos também a contribuir para magoar ainda mais Kim Bok-nam?
Se actrizes como Liv Ullmann, Ingrid Thulin ou Harriet Andersson ficaram famosas pelos seus brilhantes desempenhos em filmes como Cries & Whispers, The Silence ou Persona isso deve-se em igual parte ao seu talento e à coordenação de Ingmar Bergman. O fascínio e inspiração que o cineasta absorvia das mulheres que o rodearam ao longo da sua vida foram influentes no protagonismo prestado às personagens femininas, cujas frustrações, desejos, medos e pontos fortes foram frequentemente abordados com uma honestidade sem paralelo. Um dos casos mais paradigmáticos na minha opinião é a ficcionalização da sua própria mãe em The Best Intentions, filme que não teve força, coragem ou vontade de realizar, e que retrata os primeiros anos em conjunto dos pais na Suécia do início do séc. XX, desde que se conheceram até ao nascimento do segundo filho… Ingmar.
Anna é apresentada como uma jovem temperamental, rica e bonita, que foi educada a pensar por si, a instruir-se e a trabalhar, o que maravilha e assusta Henrik, estudante pobre num seminário, que tem uma visão mais realista da vida, tendo sofrido na pele muitas contrariedades, mas também mais tacanha e arrogante. São duas pessoas que, ao longo de mais de cinco horas, passamos a conhecer de dentro para fora, que, graças à paciência do argumento e de Bille August na realização, vemos na intimidade e percebemos de onde vêm e, por isso, é fácil apontar-lhes falhas sem deixar de os admirar e querer continuar a seguir - cria-se um sentimento de familiaridade. Assim, a evolução de Anna é palpável e tratada com o mesmo grau de respeito e detalhe que o cinema parece, tantas vezes, conseguir associar apenas a personagens masculinas.
Se no início se assume como mimada e sonhadora, o controlo tóxico da mãe, a morte do tolerante pai, a doença e os revés da sua relação com Henrik vão-na tornando mais forte, mas também ameaçando a sua espontaneidade e beleza natural. Torna-se mais ponderada a falar e as rugas aparecem aos poucos, evidenciando o peso das concessões que vai aceitando para criar o seu futuro e o quão difícil é fazê-lo sem perder noção de quem é. Nesse sentido, Pernilla August dá ao papel toda a credibilidade e as nuances que este exige. Estamos a falar de uma mulher autossustentável numa altura em que nem sequer podia votar, por isso quando Anna exige ao marido que pare de pensar apenas nele para tomarem decisões juntos está a materializar audazmente um apelo muito pessoal. The Best Intentions é um filme de época que, mais do que relatar os amores e desamores de um casal, explora a divisão equitativa de responsabilidades na intimidade e o papel da mulher numa família e numa sociedade em geral.
Filme: The Stoning of Soraya M. Mulher: Zahra (IMDb)
Este é daqueles filmes que só o titulo já assusta. Para ver este filme é necessário estar preparado psicologicamente porque o titulo não engana ninguém o filme é um "dramalhão".
O filme é baseado numa historia verídica, um jornalista franco-iraniano tem um problema com o carro numa zona remota do Irão, aproxima-se à primeira aldeia que encontra para arranjar o carro e aí conhece Zahra que lhe conta a historia da sua sobrinha Soraya, que tinha morrido no dia antes por apedrejamento.
The Stoning of Soraya M. aborda o tema da falta de direitos da mulher nesse país mas sobretudo o modo de vida que se vive no Irão, que parece que estamos na época medieval onde o clero e as autoridades locais
governam a seu belo prazer a população, impondo medidas absurdas e arcaicas tudo em nome dos bons costumes.