29/12/2011

Drive (2011) por Sofia

[spoiler]

Antes de falar sobre o filme, questiono (mais uma vez): como é que existem pessoas (críticos ou simples amantes de cinema) que argumentam que o cinema deixou de ousar, de criar ou de inovar, que deixou de conseguir criar filmes que podem tocar o patamar "culto", defendendo a ideia de que Hollywood deixou de ter imaginação e que corre sérios riscos de morte... Eis um exemplo que abalou pela positiva a critica. 




Alynda Wheat, People:
"Stylish and intense, with riveting performances... a great piece of Los Angeles noir about an icily controlled stunt/getaway driver... Gosling and Mulligan are magnetic..."

Jessica Winter, Time:
"...a gleaming, goofy action-thriller.... To invest oneself emotionally in the central relationship, or the movie itself, would be akin to investing oneself emotionally in one's car. But when the car looks this good and drives this fast, why not?" 

Christy Lemire, Associated Press: 
"...feels like an homage to early Michael Mann.... oozes sleek '80s style... offers some serious character actors in big, showy supporting performances, which offers the same sort of appealing, startling contrast as the film's violent streak." 

Lisa Schwarzbaum, Entertainment Weekly: 
"...revels in sensory detail; it's a visually and aurally edgy Euro-influenced American genre movie about the coolness of noir-influenced American genre movies about the coolness of driving -- especially in L.A." 

Peter Travers, Rolling Stone: 
"...a brilliant piece of nasty business that races on a B-movie track until it switches to the dizzying fuel of undiluted creativity. Damn, it's good. You can get buzzed just from the fumes coming off this wild thing." 

Claudia Puig, USA Today: 
"The look is artfully stylized, influenced by classic film noir; the mood is dark; the performances nuanced; and the story unnervingly exciting.... Thoroughly immersing..."


Pois é, Nicolas Winding Refn, provou que é possível inovar, supreender e cativar. Drive é inspirado e adaptado dum livro de 2005 de James Sallis com o mesmo título.
A história é verdadeiramente simples - a personagem principal, interpretada por Ryan Gosling tem uma vida dúbia - duplo de cinema, mecânico e condutor de fugas em assaltos. Solitário por natureza, envolve-se por amor num esquema de traições e perseguições que põem em causa a sua vida, mas sobretudo a vida da mulher  por quem se apaixonou (Irene, interpretada por Carey Mulligan), bem com do filho desta.




A personagem à qual Ryan dá vida, não tem nome, é simplesmente "o condutor" (Driver) ou como diz Shannon (dono da oficina e uma espécie de amigo, interpretado por Bryan Cranston) - "o miúdo", tem uma interpretação extraordinária, marcada pela ausência de palavras, mas dominada pela expressão facial e corporal. Percebemos que aquela pessoa é primeiro que tudo - um solitário, tem dificuldade em lidar com o mundo e sobretudo com as pessoas. Envolto num misto de ternura e de violência extrema - tem na estrada,  uma casa e no carro, um amigo. 
A história do filme, já a vimos muitas vezes - um revoltado, bandidos, carros, perseguições, paixão, desconfiança, adrenalina, etc. Em Drive encontramos certos detalhes que já vimos em Bullit (1968) ou em The French Connection (1971), por exemplo. Existe ainda muita critica a considerar este filme como sendo do "género noir" - percebo a associação, mas não me parece que esse fosse esse o objectivo propositado de Refn. Sim, temos sombras, contrastes, corrupção, questões morais, clichés, mas, a meu ver, a personagem principal não tem como missão final a eterna premissa do "fim justifica os meios". É um justiceiro, mas na verdade é um violento e perturbado justiceiro. 
Para terminar, uma menção honrosa a Cliff Martinez e ao seu trabalho no que à banda sonora diz respeito. Complementa fabulosamente o filme, dá-nos uma sonoridade típica dos anos 80 - com aqueles acordes míticos, e cada nota é adequada àquilo que os nossos olhos contemplam. 
É um filme brutal, pela sua simplicidade e pela forma crua e dura como a expõe. Será uma referência a 2011 para sempre. 


18/12/2011

Bully (2001) por Sofia

Infelizmente não é ficção. Larry Clark, famoso por ousar colocar nos seus filmes temas controversos que envolvem adolescentes, drogas, sexo, usou para este filme a história verdadeira do assassinato de Bobby Kent. Baseado num livro de Jim Schutze - Bully, A true story of high school revenge
Em Bully, assistimos ao quotidiano de um grupo de adolescentes, com foco principal em dois amigos - Marty Puccio (Brad Renfro) e Bobby Kent (Nick Stahl) - cuja relação aparentemente normal, é na realidade um tormento, que envolve maus tratos, prostituição e desrespeito. 




A estas duas personagens outras se juntam. O que os une: a adolescência, a parvoíce inerente a esta fase, a promiscuidade, o uso abusivo de drogas, a negligência parental e sobretudo o ódio por Bobby Kent.
Muitas coisas neste filme não passam despercebidas, sobretudo àqueles que já foram adolescentes, que erraram, mentiram e sobretudo aqueles que tiveram pressa em viver. Existe uma identificação com o filme, que no entanto, se desfaz no minuto em que percebemos que algo vai correr mal. E no momento que a estupidez da idade dá lugar à maldade e à ousadia de matar alguém. A violência da mensagem do filme, faz-nos colocar os pés na terra e rapidamente percebemos que uma pessoa morreu, no meio de uma usual noite de entre amigos. 




A morte de Bobby Kent ocorreu em 1993, na Flórida. Foi morto por sete adolescentes, sendo que o seu melhor amigo - Marty Puccio foi sentenciado à pena máxima. A relação de amizade entre estes dois rapazes, tal como aborda o filme, não era simples, envolvia raparigas, uma suposta violação, ameaças de morte, e bulling. 
Esta morte chocou os americanos, não só pela realidade violenta da mesma, mas por ter sido pensada e executada por adolescentes e sobretudo, porque muitos dos jovens que participaram neste esquema "requintado" nem sequer conheciam a vítima. Todos os jovens foram sentenciados, mas Marty Puccio, foi condenado à morte por cadeira eléctrica (mas segundo li, a sentença foi alterada para prisão perpétua - informação esta, que não consegui confirmar). Continuando num choque de realidade, o actor (Brad Renfro) - que iniciou a sua carreira em 1994 com o filme Client de Joel Schumacher e que em Bully interpreta Marty Puccio morreu em 2008, vitima de overdose de heroína, com 25 anos. 




Com a tagline "It's 4 a.m... do you know where your kids are?" é um filme violento, mas obrigatório. Uma chamada de atenção para pais e uma lição de vida para os jovens. No New York Times, em 2001 lia-se: "Bully é como um medicamento para o cancro: poderoso, difícil de engolir, mas necessário. Um Senhor das Moscas dos tempos modernos."

04/12/2011

A Dangerous Method (2011) por Sofia

[spoiler]

Even the celebrated spanking scene fails to knock much life into David Cronenberg's lugubrious tale of the tussle between Freud and Jung. Xan Brooks, The Guardian

A Dangerous Method is acclaimed director David Cronenberg’s best film in years. Owen Gleiberman, Entertainment Weekly

Given its long stretches of earnest and erudite scientific talk, “A Dangerous Method” might seem to be his calmest and most cerebral film yet. A.O. Scott, New York Times 

A Dangerous Method reeks of Oscar-bait — acclaimed actors playing historical figures while wearing celluloid collars and carrying parasols around old Europe. But sometimes a cigar is just a cigar, and a prestige piece is just a well-intentioned bore. Alonso Duralde, The Wrap

Cronenberg sticks close to the historical record, documented by letters and journals, while offering his interpretation of the facts. Given the specimens, much of the movie seems to unfold in a pristine petri dish. J. Hoberman, L.A. Weekley



Existem críticas e opiniões para todos os gostos, boas, más, assim-assim. De facto, olhando para o historial de Cronenberg, é estranho ver uma biografia história no currículo do mesmo realizador de Eastern Promises, A History of Violence, eXistenZ, Crash, The Fly, Scanner, etc. Mas questiono: é assim tão estanho ver sair da mente do realizador em causa, um filme cujo sentido de violência abandona o físico ou a ficção científica, se tivermos em conta que em 1993 este mesmo realizador ousou levar ao cinema o ousado filme M. Butterfly?
Recordemos rapidamente: China, espionagem, diplomacia, ópera, homossexualidade... e assim vistas as coisas, psicanálise parece-me simples.

No meio da blogosfera e até nas redes sociais, muito tenho lido sobre o filme e geralmente leio "esperava mais". Esperavam ver Freud transformar-se num monstro aligena e Jung viciado em desastres autómoveis. Ou quem sabe Sabina Spielrein, criadora de jogos interactivos? 
Talvez seja mesquinha no que diz respeito ao uso de fontes históricas ou leve demasiadamente a sério a questão "salvaguarda da memória" de duas, ou ouso dizer, três das pessoas mais importantes da época contemporânea. Mas existem coisas que a meu ver são intocáveis, e nisso Cronenberg foi totalmente respeitoso. Deixo outra questão: é obrigatório o cinema ir sempre além fronteiras e ousar ir além daquilo que existe? Não me parece quando de biografias se fala. Assim de repente, recordo-me de Oliver Stone em Alexander (2004) - o realizador quis ir mais além e a "aventura" não lhe correu bem. 
Podia igualmente ficar aqui a debater de forma infinita o que é que devia ser mais detalhado no filme, o que devia ter sido posto de lado, os exageros, as faltas de exactidão. Mas, como não acho que isso tenha acontecido, deixo essa parte da crítica chata, para quem queira. 






Cronenberg disse no Festival de Veneza que "esta é a minha primeira biografia convencional (... ) tento ressuscitar uma pessoa ou ressuscitar uma era” (...) "cada filme diz exactamente o que precisa”. “É um desafio, porque não podemos só fantasiar as pessoas e rodar”. Tudo isto como tem como pano de fundo uma proximidade à Guerra Mundial, que, nas palavras de Cronenberg, “pôs fim ao sonho de progresso e à assim chamada civilização europeia”.
Três exímios actores, três personagens históricas - Viggo Mortensen, Michael Fassbender, Keira Knightley, são respectivaente - Sigmund Freud, Carl Jung e Sabina Spielrein. No entanto outros dois actores merecem destaque: Vincent Cassel como Otto Gross (o psiquiatra psicótico) e Sarah Gadon que interpreta a mulher de Jung, Emma Jung
Já alguém imaginou a responsabilidade e a ousadia de colocar estas personagens em tela, bem como as teorias cientificas que defendiam? 
Agora recuem no tempo, situem-se no século XIX e XX (já com algumas diferenças e evoluções científicas) e pensem como é que a sociedade da época recebeu  as palavras e teorias que envolvem: neuroses, psicoses, perversões, sonhos, fantasias, histeria, sexo, libido, incesto, Édipo, Jensen, ego, semiótica. Ainda hoje, os cientistas da psicanálise são como que um mistério para a comunidade científica, até para nós - os comuns mortais, que temos tendência a "dar um sorriso" quando algumas destas palavras são usadas.






Para muitos, um sonho é um sonho, para os psicanalistas o sonho é uma forma de diagnóstico. Assunto bem focado no filme e ponto de ruptura entre Freud e Jung. Alguns dos críticos (pela negativa) do filme, consideram que Freud é pouco mencionado no filme, merecia mais - não sei se dizem isto porque queriam ver mais de Viggo, ou se nutrem de facto uma maior simpatia pelo cientista. Considero que Cronenberg fez propositadamente esta separação de personagens, dando talvez um maior enfanse a Jung - o pai da psicologia analítica e fazendo questão de mostrar o que os separa.
O filme preocupa-se em mostrar a união e o respeito mutuo entre os dois, mas é bastante claro naquilo que os divide. Tendo por base uma investigação histórica que teve como fonte, as cartas que os cientistas trocaram entre si, Cronenberg mostra as diferenças de forma clara. Jung não aceitava a justificação do trauma sexual para todos os conflitos psíquicos e Freud não aceitava que Jung se interessasse por fenómenos espirituais e religiosos.
Pouco tempo depois de cortarem relações, Freud - judeu, é perseguido pelos nazis, os seus livros são queimados e passam a constar na lista da literatura proibida, enquanto que Jung - suíço, torna-se um dos "pais da psiquiatria alemã". Muitos são aqueles que o consideram um defensor da causa "super-homem" e simpatizante das teorias de Adolf Hittler. Teoria esta, passível de controvérsia, pois é sabido que muitas das  obras de Jung também foram condenadas pelo regime nazi.




No meio destes dois homens, eis que surge Sabina Spielrein, intrepretada por Keira Knightley. Apesar de imaginar que tivesse sido soberbamente difícil  interpretar alguém que sofre de graves patologias, considero-a o "elo mais fraco" do filme. É uma interpretação muito física, mas mesmo no meio dos seus ataques, em que o corpo é conduzido por fortes espasmos, não a consigo levar muito a sério. Talvez a escolha da actriz  não tenha sido a mais feliz, ou talvez o problema seja só meu, pois não consigo ver em Keira uma russa judaica. 
A sua doença, o internamento e a relação com Jung é correcta. Alexandre Guerra escreveu no blog PiaR: "É uma mulher que entra doente numa clínica na Suíça e, anos mais tarde, esbate as suas debilidades e fragilidades para se colocar numa posição de força. E não tivesse sido morta pelos nazis (...), talvez tivesse sido tão influente para o século XX como foram Freud e Jung, sublinha Cronenberg."




Spielrein foi uma das primeiras mulheres psicanalistas do mundo. Em 1911, defendeu uma dissertação sobre um caso de esquizofrenia e nesse mesmo ano, tornou-se membro da Sociedade de Psicanálise de Viena. David Cronenberg centrou muito o filme nesta personagem. E porquê se tinha duas figuras que abafavam o lado feminino, pela importância que tiverem em vida e sobretudo após morte? É que Sabina doente, perturbada, louca - superou, curou-se. A doença dá lugar à cura, com esforço, determinação, com altos e baixos, com avanços e com recuos - superou através de método. Por muito perigoso que seja, depende do "eu", da vontade e do conhecimento - daquele que temos sobre nós, mas também daquele que temos sobre o que nos rodeia.

Com este filme Cronenberg grita bem alto: a humanidade necessita urgentemente de "método"... 


Uma nota extra para mencionar como incrível é o cenário "escritório de Freud". As prateleiras recheadas de livros e de estatuetas referentes ao divino feminino, são deliciosas. Reparem sobretudo na pré-histórica Vénus de Willendorf.

03/12/2011

Immortals (2011) por Sofia

[spoiler]

Quando vi o trailer de Immortals pela primeira vez pensei para comigo – sim, vais gostar! Depois de ter visto o filme, sou obrigada a concordar comigo própria… sim, gostei!
Os críticos de cinema – aqueles mais dados ao sério, que me desculpem, mas este é um daqueles filmes que me toca ao coração. A minha veia “investigação” abandona a racionalidade e dá lugar à paixão.



Longe de ser cinematograficamente perfeito – objectivo esse que não me parece ser a determinação principal de Tarsem Singh, é um orgasmo visual – fabulosamente gráfico do princípio ao fim. Mas, se me perguntarem se considero o 3D necessário… a resposta é não. Percebo a sua utilização no filme, mas tenho a certeza que mesmo sem esta tridimensionalidade, o filme iria ser igualmente soberbo a nível gráfico.
Qualquer filme que contenha um herói / líder retirado do "leque mitológico" e que tenha nos seus antepassados próximos um 300, um Troy, um Alexander e até um Spartacus vai sentir na pele a crítica feroz daqueles que medem tudo o que é filme, pela mesma régua. A mim, não me interessa, Teseu (Henry Cavill) não é Leónidas e Hyperion (Mickey Rourke) não é Xerxes – falamos de episódios diferentes.




Aqueles que têm a mente aberta e que conhecem relativamente bem a mitologia grega, sonham durante 110 minutos. Deuses, semi-deuses, imortais, mortais, oráculos, símbolos, mitos, lendas, tudo isto tem espaço em Immortals. Sim poderia ser melhor, mais detalhado talvez, mas certo é que isso ia tornar um filme de acção, num documentário sobre mitologia grega, e para isto existe o canal História.

No entanto, alguns detalhes têm que ser mencionados. Um dos erros está na personagem Hyperion. Interpretado por Mickey Rourke (que é, nada mais nada menos do que igual a si mesmo) é no filme uma espécie de mercenário ao serviço do mal. Mas na verdade, na mitologia grega Hyperion era filho do Deus Urano e de Gaia e era na verdade um Titã, portanto se Tarsem tivesse tido isto em conta, a personagem teria talvez tido mais força. Os Imortais também são algo que não está bem definido, são uma espécie de trogloditas com o dom da imortalidade, que a meu ver mereciam um melhor trato tendo em conta que são os únicos com o dom de fazerem com que os Deuses saíssem do Monte Olimpo e descessem à terra com a sua verdadeira forma física. Também com Fedra as coisas não são lineares. Fedra era na verdade filha do rei Minos (de Creta) e casa de forma "obrigada" com o rei Teseu (sim, Teseu foi Rei de Atenas) e toda a história entre estas duas personagens é uma tragédia grega e não o bonito romance que o filme aborda. 



Faltou a Teseu as sandálias e a espada do pai, faltou-lhe Ariadne, falta Atenas e faltaram as Amazonas. Temos o Minotauro e o labirinto, mas em versão muito soft. Existem falhas narrativas e históricas no filme. Mas sinceramente, penso que isso não é relevante. Os nossos olhos ficam tão exacerbados pelo factor visual que tudo o resto é acessório - mesmo àqueles olhos mais atentos e exigentes. Considero que esta mesma orgia visual, impede as divagações acerca das qualidades interpretativas de Henry Cavill, que muitos querem ver falhar “à força” no próximo filme da fasquia Superman. É um filme para pensar como um todo e não em detalhes mesquinhos.





Temos Zeus, temos Atena, Ares, Poseidon, Heracles, etc. E as cenas onde os deuses intervém, são fabulosas. Não sei se teremos um Immortals 2… mas Teseu era herói o suficiente para isso, no entanto a introdução de Acamas (filho de Teseu e Fedra) no fim do filme, faz-me suspeitar que a existir um segundo, vamos ter algo que envolva Tróia... 



Ora bem... a ver, por todo o refinamento visual onde tudo o resto é acessório!

11/11/2011

The Ides of March (2011) por Sofia

[talvez contenha spoiler]

Alguém por aqui já reflectiu sobre o título do filme em causa? 
Provavelmente não, eu é que reparo nestas coisas esquisitas. Os Idos foi uma espécie de contagem cronologica que os romanos - esse povo inventivo da antiguidade clássica - criaram para dividir os meses. Os Idos decorrem no décimo terceiro ou no décimo quinto dia do mês - no primeiro dia da Lua Cheia (depois ainda existem as calendas e as nonas). O que é que isto tem a ver com o filme? Tudo, porque os Idos de Março ficaram registados na história, por ser a data em que Júlio César foi assassinado (a 44 a.C). 
Continuam na mesma, não é? Mas vão continuar assim, porque eu não vou contar tudo!




Enquadramento ao filme: 
Todos (mesmo os mais distraídos) sabem que o sistema eleitoral americano não é fácil de entender. Nos Estados Unidos da América existe uma votação a que se dá o nome de eleições "primárias". Estas são eleições internas, ou seja dentro de um partido político (militantes) que permitem nomear um candidato a uma eleição futura. E é este o mote do filme. 

O filme:
Não quero desvendar muito, porque considero ser um filme A VER e portanto, não chega ler "resumos".



Republicanos versus Democratas em Ohio. A escolha do estado "cenário" foi uma jogada inteligente de George Clonney. Ohio é politicamente um desafio, pois não é dominado politicamente por nenhum dos partidos. Os republicanos votam em democratas e os democratas votam em republicanos.
Os 5 primeiros minutos do filme são especiais e mostram porque é que é que Ryan Gosling é um dos melhores actores da actualidade e fica justificado porque é que George Clooney o escolheu. O filme foca-se nos bastidores da política, naqueles que preparam discursos, estratégias, itinerários. Aqueles que definem como o candidato deve agir, mover-se, até pensar. Aborda os profissionais da política - aqueles que estão na sombra dos políticos - os "casados com a campanha".




No meio de intensos momentos e diálogos, percebemos as diferenças entre objectivos e países. Nos EUA, os discursos dos políticos abordam o petróleo, a pena de morte, as guerras, a tecnologia, o ambiente. A Constituição é a religião da nação e está em causa liderar não só o país, mas o mundo. O filme é feito de momentos, e o mestre é superado pelo súbdito, recheado por excelentes personagens secundárias - interpretadas por Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei Evan Rachel Wood
Fantástico retrato de como em política o mais importante é a lealdade e como nem sempre, tudo o que parece é. Ficamos com a certeza de que os políticos, são homens e no fim do filme vão perceber a importância da "morte de Júlio César" e dos Idos de Março. 




"When we make a mistake, we lose the right to play"

01/11/2011

Boss

por Sofia;

Na minha opinião, Boss é a maior surpresa (pela positiva) da temporada 2011/2012 de séries norte-americanas.
Kelsey Grammer habituou-nos a um registo cómico, tão bem representado em Cheers ou Frasier, mas também foi Beast (X-Men 3), foi o general Partridge, etc. Com a sua voz poderosa, parece-me que tal como Glenn Close em Damages, Grammer vai fazer com que a televisão se eleve, e que cada vez mais as interpretações de actores em séries televisivas igualem ou superem as interpretações cinematográficas de alguns dos actores mais badalados da actualidade.



Como tinha saudade de uma boa série política - The West Wing, foi e é marcante para a história da televisão, mas parece-me que esta série terá igualmente algo a dizer.
O canal Starz está mais uma vez de parabéns. A aposta é singular e perigosa de manter no ar - sobretudo pelos assuntos delicados e controversos que aborda.
Não quero adiantar muito sobre a série. De facto, não é para todos os públicos, aborda política, o sistema eleitoral americano, a lúxuria, a corrupção, a ausência de escrúpulos, a doença e é sobretudo uma crítica feroz ao uso de "aparências".

O cenário - a cidade de Chicago. Aborda de forma sublime a questão das etnias tão importantes na cidade em causa, os problemas sociais e os problemas políticos inerentes a esta diversidade. Para os curiosos no assunto - Chicago é governada por um prefeito, tem um tesoureiro próprio e existe um conselho municipal, que é constituído por um representante de cada uma das 50 zonas da cidade.
E para que percebam melhor esta peculiaridade da cidade fiquem com números dos censos de 2000:

- 41,97% (dos habitantes da cidade) são caucasianos
- 36,77% afro-americanos
- 26,02% hispânicos
- 0,36% nativos americanos
- 4,35% asiáticos,
- 0,06% nativos polinésios
- 13,58% são de outras etnias
Agora imaginem todo este enredo numa exímia série de televisão. 5 estrelas e bem recheadas. Mais que recomendado...


E termino com uma citação de Winston Churchill"A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes."


Nota: As estatísticas aqui apresentadas podem não ser as correctas - tendo em conta que o sitio web de onde as tirei não prima por credibilidade, mas podem visitar o site oficial dos Censos americanos - aqui.

19/10/2011

Crazy, Stupid, Love [2011] por Sofia

(alerta; spoiler)

A história é simples: casamento, divórcio, renascer, reaprender, amar.
Estas palavras são os ingredientes fundamentais para uma receita simples - tudo para que um filme se torne básico e normal, mas Glenn Ficarra e John Requa conseguiram realizar um filme despretensioso, sem recorrer ao humor fácil e a dramas lamechas. É um filme bem disposto, simples, muito bem interpretado. 



A história: um casal (Cal Weaver - Steve Carell e Emily Weaver - Julianne Moore) depois de um longo casamento, vê-se assombrado por uma relação extra-conjugal e abalado por um pedido de divócio. Envolto em problemas existenciais e perda de confiança nele próprio, Cal refugia-se num bar, onde conhece o mulherengo, experiente conquistador e sexy Jacob Palmer (interpretado por Ryan Gosling). Entre os dois nasce uma parceria, Palmer voluntaria-se para ensinar Cal a ganhar auto-estima e ensina ao inexperiente e candidato ao divórcio, a arte da sedução. Entre o mestre e o aprendiz nasce uma relação de amizade. 
Inserido o ditado "pela boca morre o peixe" entra no enredo a fabulosa Emma Stone, que dá o corpo e alma a Hannah, aquela que vai desafiar a forma de ser e de estar de Jacob - o mulherengo. 
A vida dá voltas, e o divórcio não passa de um projecto e aquele que era imune ao amor, encontra-o onde menos se espera, no seio da família que tão bem conheçe... de longe.




O enredo é povoado por fabulosas personagens secundárias: Marisa Tomei é incrível - pena aparecer tão pouco tempo. Analeigh Tipton ex-concorrente do programa de Tyra BanksAmerica's Next Top Model é Jessica, a babysister que é apaixonada pelo homem mais velho, pelo chefe e pai do casal de "crianças" que toma conta, cujo rapaz,  por sua vez é apaixonado por ela. Rapaz este - Robbie Weaver, interpretado por Jonah Bobo - uma personagens preciosa.
Kevin Bacon é David Lindhagen - a causa do divórcio, e Liza Lapira é Liz, a melhor amiga de Hannah - aquela que diz as verdades e cujo sentido de humor, envergonha mesmo as almas mais "livres". 

A minha cena favorita: 



Em resumo: Carrel e Gosling são únicos, e as meninas - Moore e Stone são igualmente excelentes. O filme é  competente, divertido, acessível e repito: despretensioso. 

17/10/2011

Midnight in Paris [2011] por Sofia

(alerta: spoiler) Não simpatizo com Woody Allen. Match Point é o meu eleito do realizador e depois de ver Midnight in Paris, confirmei que assim permanecerá e a simpatia para com o senhor continua em "vias de extinção". 




O filme tinha tudo para ser bom, mas fica-se pelo "pateta". A história é interessante - um escritor à procura de inspiração em Paris (será este tema uma metáfora aplicável a Allen?). O filme é envolto por personagens básicas e dadas ao ridículo, mergulhado por viagens no tempo e encontros com figuras de vulto e totalmente subaproveitadas. Eis os "detalhes" que mais me desagradaram: 

- A politiquice expressa em vários momentos através do discurso democratas versus republicanos. 

- Ernest Hemingway gozado com parvas referências à sua experiência na Segunda Guerra Mundial, pela sua paixão pela caça e como não podia deixar de ser, a crítica ao gosto do escritor pelas touradas. É basicamente um bêbado sentado num bar. Só faltou insinuarem uma relação homossexual com Juan Belmonte. 




- Pablo Picasso retratado como alguém mínimo, preocupado com uma amante - será o mesmo Picasso? Aquele que um dia disse: "a mulher para ser perfeita deve ser passiva e submissa (...)"?.

- Gertrude Stein, com as paredes da sua casa correctamente recheadas por quadros de Juan Gris, Matisse e Picasso's é uma mera revisora literaria?

- Salvador Dalí - sim era louco, mas dar-lhe tempo de antena para falar de rinocerontes, era desnecessário. 

Pelo filme circulam ainda: Cole Porter, Zelda Fitzgerald, F. Scott Fitzgerald, Joséphine Baker, Luis Buñuel, T.S. Eliot, Henri Matisse, Leo Stein, Henri de Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin, Edgar Degas, etc. TUDO para conseguir algo genial, mas não, a opção "pateta" foi a escolhida. Este desfile de personagens históricas e intocáveis, envoltas em diálogos fracos, limitados e com tentativas de "cunho cómico" são para mim verdadeiros baldes de água fria. 

Existem no entanto, três coisas fazem sentido no filme: 
- Owen Wilson 
- Paris 
- e a escolha da pintura de Vicent van Gogh como fundo para o cartaz promocional do filme. Parece-me que Allen e Gogh têm algo em comum - esquizofrenia, por exemplo.