19/02/2012

Martha Marcy May Marlene (2011) por Sofia

[spoiler]

Como gosto desta sensação de chegar ao fim de um filme e ter a cabeça a ser bombardeada por perguntas. Aliás a narrativa do filme é tão bem feita que ao longo do filme os "porquês", os "como", os "mas" e os "se's" estão sempre presentes. 



É um thriller fabuloso. Elizabeth Olsen é incrível e consegue mergulhar no mundo criado pelo realizador e guionista - Sean Durkin de forma espontânea, intensa e sobretudo emocional. Os cenários e a narrativa alteram entre um passado complicado e próximo e um presente tortuoso. Uma adolescente que foge de casa e que se vê envolvida numa espécie de seita ou comunidade, em que além da óbvia discriminação sexual, dos trabalhos no campo e da aparente anarquia perfeita, vive abusos sexuais e tudo é controlado por um líder abusivo. O medo, os assaltos a que é obrigada a participar e a iniciação de outras jovens aos rituais comuns levam a protagonista - Martha ou Marcy (a mesma pessoa) a fugir. 
Procura a irmã, procura uma fuga... mas a instabilidade psicológica, a ausencia de valores sociais e a incapacidade de comportamentos normais, acabam por tornar a jovem cheia de medos, paranóias e no limbo da insanidade mental. 




Ao longo do filme, os constantes flashbacks justificam a incapacidade mental de Martha, mas nunca nos deixam ter certezas absolutas. Será que aconteceu mesmo? Será que a adolescente viveu aquilo? Ou tudo não passará de truques e esquizofrenias da mente da jovem. No fim, o realizador faz um alerta ao perigo destas comunidades e seitas religiosas (ou não) que cada vez mais existem pelo mundo fora. O contexto social e financeiro que o mundo vive é propicio a estas ocas causas e utópicas filosofias de vida. Mas Sean Durkin consegue um filme perturbador e inteligente. Criamos uma empatia com a personagem principal - apetece-nos salva-la, mas ao mesmo tempo apetece-nos abana-la para a realidade da vida e sobretudo para receber de braços abertos, aquilo que a vida com a irmã e cunhado lhe pode oferecer. E no fim a dúvida assombra-nos: Martha corre realmente perigo de vida? Ou é tudo fruto da sua mente perturbada e alvo de abusos físicos e psíquicos?

Duas notas finais: Sean Durkin promete muito e a irmã mais nova das gémeas Olsen, Elizabeth também me parece que tem futuro. 



25/01/2012

The Descendants (2011) por Sofia

[spoiler]

O realizador Alexander Payne o mesmo de Sideways e About Schmidt já nos habituou a colocar na tela assuntos / histórias que abordam temas aparentemente banais. No entanto na banalidade dos temas, consegue dos actores que escolhe como protagonistas interpretações incríveis, tornando na verdade os enredos tudo, menos banais.



A história é basicamente a seguinte: um casal - o homem mergulhado no trabalho e com pouco tempo para se relacionar com as filhas e para "alimentar" o casamento. A mulher adultera está em coma. As filhas  são rebeldes e com graves problemas no que diz respeito à autoridade. 
O que é que há de novo aqui? Nada. já vimos esta história vezes sem conta - no cinema, na televisão, em literatura e até na casa dos vizinhos do lado. Então o que é que torna este filme tão aclamado pela crítica, considerado por muitos um dos dos "melhores de 2011" e - agora já sabemos - nomeado para cinco Óscars nas categorias de Melhor Filme, Melhor Actor Principal, Melhor Realizador, Melhor Montagem e Melhor Argumento Adaptado





Porque toda a simplicidade e banalidade da história em causa é espelhada na interpretação incrível de George Clooney. O actor usa e abusa da sua fisicalidade e até mesmo da sua aparente ausência de expressão facial - com ela mostra-nos sentimentos, estados de espírito e sobretudo o ridículo humano de que todos padecemos. O filme tira-nos um sorriso nervoso no meio de uma situação depressiva ou dramática e faz-nos ficar pensativos no meio de uma cena em que devíamos rir.

Se Clooney é deslumbrante como Matt King, as duas novatas Shailene Woodley (como Alexandra King) e Amara Miller (como Scottie King) dão um toque de graça e complementam de forma correcta e eficaz a soberba interpretação do protagonista. 
É a aura simplista do filme que cativa a atenção do espectador. É um filme sobre relações, traição, amor, ódio, perdão, descoberta, respeito e justiça. Também é possível pensar também no filme como uma lição de vida sobre a morte - aquela que todos esperamos um dia, mas para a qual dificilmente estamos preparados para a receber e aceitar. O toque de génio do filme é que é para ser visto com um sorriso na cara, mas ao mesmo tempo com uma lágrima inevitável e fácil.


23/01/2012

The Girl with the Dragon Tattoo (2011) por Sofia

[spoiler]

Sentei-me no cinema totalmente ausente de informações detalhadas. Não li os livros de Stieg Larsson, não vi as adaptações suecas e esforcei-me (como sempre) por não ler criticas (negativas ou positivas) sobre o filme. Mas tinha as expectativas altas, tudo me fascinou na publicitação ao filme - os trailers, os posters, as fotografias, as entrevistas dos protagonistas. As expectativas estavam ainda mais elevadas por Daniel Craig estar no elenco.



Dificilmente alguém entenderá este filme se não perceber aquilo que caracteriza os suecos, de forma resumida e sem entrar em grandes detalhes - contenção, impaciência, ironia, independência, fascinados por regras e viciados em noticias. Terra de Vikings e de suposta neutralidade na Segunda Guerra Mundial. A história por detrás do filme, é crua, violenta e tem na personagem Lisbeth Salander (interpretada por Rooney Mara) a prova da fragilidade aparente de um sistema de institucionalização e salvaguarda de "menores" oca e cheia de erros profundos. 

É uma história de investigação policial. Com um cheirinho a Poirot, Sherlock, Hitchcock e até Jessica Fletcher da série Murder, She Wrote. O cenário-crime no seio de uma família numerosa é sempre uma receita fantástica. Um desaparecimento, várias mortes. Todos são suspeitos, todos são testemunhas, todos são inocentes. Um enigma por desvendar, um puzzle por completar. As peças estiveram anos e anos à frente de todos, mas poucos as souberam ver e interpretar.




No decorrer do filme são lançadas várias pistas para a investigação e as personagens principais começam a ser misturadas no enredo, e ao mesmo tempo, são esmiuçadas as suas vidas, formas de ser e de estar. 
Mikael Blomkvist (Daniel Craig) um jornalista de investigação e sócio da revista Millenium, está envolvido num escândalo juridico e mediático com um alto elemento do mundo das finanças.
Lisbeth Salander (Rooney Mara) é uma espécie de "detective particular" inteligente e irreverente. Com uma história de vida dura, só, sobrevivente, lutadora, aparentemente desequilibrada, justiceira, vingativa, astuta e destemida. Será a companheira de Mikael na investigação do "crime familiar"
Henrik Vanger (Christopher Plummer) um empresário reformado, membro de uma familia conturbada e obcecado com o desaparecimento da sobrinha Harriet há 40 anos. Contrata Mikael para investigar este desaparecimento / morte. 
Martin Vanger (Stellan Skarsgård) sobrinho atento e preocupado de Henrik é um dos herdeiros da família Vanger e responsável pela empresa da família. 




David Fincher está habituado a personagens complexas, com problemas do foro psicologico, conteúdos violentos e personagens pouco sociais. Voltou a conseguir esse feito e conseguiu colocar no filme as características "tão suecas que os suecos têm". 
Tudo o que envolve a personagem Lisbeth é pensado ao detalhe - tatuagens, roupas, brincos, forma de ser, de estar, até de andar -  faz sentido com a carga que a personagem tem. Algumas cenas que a envolvem são de uma violência fria e cruel - fazendo lembrar momentos de Irréversible e até de The Accused. Violência esta que dificilmente é ignorada pelo espectador. 

Tenho que fazer destaque ao genérico inicial - é absolutamente fantástico. Faz lembrar um video de Woodkid ou algo produzido por Swizz Beatz para Jay-Z, por exemplo.
Sai do cinema com a sensação "quero mais". Quero ver esta dupla (Craig - Mara ou melhor dizendo Blomkvist-Salander) novamente.




Convido a visitarem o fabuloso site oficial do filme - aqui


Nota extra: a Daniel Craig até o cardigan mais simples fica brutalmente bem !

10/01/2012

Marie Antoinette (2006) por Sofia


Imaginem que este texto  tem como subtitulo: "quando um filme vai além do cinema"

É incontornável a necessidade de conhecer um bocadinho da biografia da "Viúva Capeto" antes de se esmiuçar o filme em causa. A Maria Antonieta que o filme aborda é o fruto de uma corte católica e rígida - a de Viena, que num acto de politica externa e diplomatica é obrigada a casar com o Delfim de França - Luis de Bourbon, o futuro Luís XVI. A presença de Maria na corte francesa tinha como objectivo máximo usar os potenciais políticos de forma a reconciliar as casa nobres (Habsburgo e Bourbon). 


Mas, na verdade, o deslumbramento pela corte francesa e pela vida palaciana de Versalhes, fez com que a futura rainha ficasse rodeada de luxo e de riqueza. Escolheu para estar ao seu lado, pessoas que considerava bonitas e elegantes (dispensando grande parte dos funcionários da corte), organizava festas, corridas, banquetes. Frequentava teatros, óperas, bailes. Partilhava charme e namoriscava com altos membros da nobreza. O Rei não se importava e até em certa forma incentivava a vida quase promiscua da sua mulher. A sua relação com determinadas amigas também ficou registada nas calendas da história. Mas foi também uma "humanista". Patrocinou teatro, estudou filosofia, política, história, literatura. Vestia o melhor e o mais luxuoso possível. Durante a sua estadia em Versalhes, França viveu um profundo período de divulgação cultural. 
É importante para a história pessoal da Rainha o Palácio Petit Trianon - espaço que serviu para Maria esconder as suas mágoas e talvez algumas gravidezes. Um pequeno luxo rural, rodeado de hortas e animais. Representa um lado mais simples da Rainha. 

Os tempos de paz na corte francesa tinha os dias contados. Os escândalos palacianos sucedem-se - e convém termos em conta que nesta época a política já ditava as suas sentenças e a monarquia era cada vez mais, um poder afastado. A estes enredos junta-se um inverno rigoroso, a falta de produção de alimentos, ao frio e a morte. O declinio de Antonieta tem o seu inicio. 
A Rainha era o símbolo vivo daquilo que os franceses odiavam e reprimiam na monarquia - o luxo e o gasto abusivo de dinheiro. Denominada de "madame déficit", sofreu uma campanha de difamação que a levou ao isolamento. A família real ficou presa no Palácio e mais tarde vão para Tulherias, sendo a sua sentença final sobejamente conhecida - guilhotina (morte por traição) a 16 de Outubro de 1793. 
A Revolução Francesa é o acontecimento histórico que marca o inicio da Época Contemporânea. 




Assim num olhar distante, temos isto tudo no filme, não temos? No entanto, será Marie Antoinette um filme histórico? 
Para mim não é um filme histórico, mas sim uma sátira histórica a uma determinada época da História.
É um filme sobre luxo, cultura, moda. 
Para mim ver este filme é quase que um deleite de detalhes estéticos. Este filme é semelhante a um desfile de Jean Paul Gaultier, Alexander McQueen ou até mesmo da dupla nacional Storytailors. Este filme é fotografia, música, gula e revolução. É a personificação da abastança num período em que pessoas morrem com fome. 
São os vestidos, os sapatos, a decoração. É Rousseau, é Voltaire, Kant, Montesquieu, é literatura, é arte, é música. 
Coppola com os seus planos demorados e fabulosos silêncios, mostra uma mulher fútil, mas mostra também alguém que se preocupa com os filhos, uma mulher sem medos e disposta a defender sempre aquilo em que acredita. Procurando em tudo "o bom". Kirsten Dunst é exímia. 
A realizadora procura mostrar uma mulher "modernamente contemporânea "num país em que os ideais "Liberdade, Igualdade e Fraternidade"  estão a nascer e sobretudo um país em que estes valores têm diferentes significados para diferentes pessoas e estratos sociais. 
Não deixo de questionar a aparente liberdade de um pais que condenou o luxo, que gritou bem alto os valores da partilha e da justiça social e que hoje em pleno século XXI, proibe a ostentação em via pública de objectos religiosos, sobretudo os muçulmanos. 



Não é um filme para todos, sobretudo para aqueles que embutidos nos valores bacocos da liberdade democrática da Revolução Francesa, não conseguem olhar  "para um além filme". É a história de uma mulher que durante a adolescencia foi abandonada numa corte estranha, com pessoas e valores estranhos. É a história da sobrevivência de uma mulher que se adapta à vida num palácio cheio mas vazio, em que  às suas próprias custas aprende e sobrevive à dificuldade de ser contemporânea num mundo recheado por valores tipicos de um Antigo Regime. 

Como todos os filmes de Sofia Coppola é obrigatório !

29/12/2011

Drive (2011) por Sofia

[spoiler]

Antes de falar sobre o filme, questiono (mais uma vez): como é que existem pessoas (críticos ou simples amantes de cinema) que argumentam que o cinema deixou de ousar, de criar ou de inovar, que deixou de conseguir criar filmes que podem tocar o patamar "culto", defendendo a ideia de que Hollywood deixou de ter imaginação e que corre sérios riscos de morte... Eis um exemplo que abalou pela positiva a critica. 




Alynda Wheat, People:
"Stylish and intense, with riveting performances... a great piece of Los Angeles noir about an icily controlled stunt/getaway driver... Gosling and Mulligan are magnetic..."

Jessica Winter, Time:
"...a gleaming, goofy action-thriller.... To invest oneself emotionally in the central relationship, or the movie itself, would be akin to investing oneself emotionally in one's car. But when the car looks this good and drives this fast, why not?" 

Christy Lemire, Associated Press: 
"...feels like an homage to early Michael Mann.... oozes sleek '80s style... offers some serious character actors in big, showy supporting performances, which offers the same sort of appealing, startling contrast as the film's violent streak." 

Lisa Schwarzbaum, Entertainment Weekly: 
"...revels in sensory detail; it's a visually and aurally edgy Euro-influenced American genre movie about the coolness of noir-influenced American genre movies about the coolness of driving -- especially in L.A." 

Peter Travers, Rolling Stone: 
"...a brilliant piece of nasty business that races on a B-movie track until it switches to the dizzying fuel of undiluted creativity. Damn, it's good. You can get buzzed just from the fumes coming off this wild thing." 

Claudia Puig, USA Today: 
"The look is artfully stylized, influenced by classic film noir; the mood is dark; the performances nuanced; and the story unnervingly exciting.... Thoroughly immersing..."


Pois é, Nicolas Winding Refn, provou que é possível inovar, supreender e cativar. Drive é inspirado e adaptado dum livro de 2005 de James Sallis com o mesmo título.
A história é verdadeiramente simples - a personagem principal, interpretada por Ryan Gosling tem uma vida dúbia - duplo de cinema, mecânico e condutor de fugas em assaltos. Solitário por natureza, envolve-se por amor num esquema de traições e perseguições que põem em causa a sua vida, mas sobretudo a vida da mulher  por quem se apaixonou (Irene, interpretada por Carey Mulligan), bem com do filho desta.




A personagem à qual Ryan dá vida, não tem nome, é simplesmente "o condutor" (Driver) ou como diz Shannon (dono da oficina e uma espécie de amigo, interpretado por Bryan Cranston) - "o miúdo", tem uma interpretação extraordinária, marcada pela ausência de palavras, mas dominada pela expressão facial e corporal. Percebemos que aquela pessoa é primeiro que tudo - um solitário, tem dificuldade em lidar com o mundo e sobretudo com as pessoas. Envolto num misto de ternura e de violência extrema - tem na estrada,  uma casa e no carro, um amigo. 
A história do filme, já a vimos muitas vezes - um revoltado, bandidos, carros, perseguições, paixão, desconfiança, adrenalina, etc. Em Drive encontramos certos detalhes que já vimos em Bullit (1968) ou em The French Connection (1971), por exemplo. Existe ainda muita critica a considerar este filme como sendo do "género noir" - percebo a associação, mas não me parece que esse fosse esse o objectivo propositado de Refn. Sim, temos sombras, contrastes, corrupção, questões morais, clichés, mas, a meu ver, a personagem principal não tem como missão final a eterna premissa do "fim justifica os meios". É um justiceiro, mas na verdade é um violento e perturbado justiceiro. 
Para terminar, uma menção honrosa a Cliff Martinez e ao seu trabalho no que à banda sonora diz respeito. Complementa fabulosamente o filme, dá-nos uma sonoridade típica dos anos 80 - com aqueles acordes míticos, e cada nota é adequada àquilo que os nossos olhos contemplam. 
É um filme brutal, pela sua simplicidade e pela forma crua e dura como a expõe. Será uma referência a 2011 para sempre. 


18/12/2011

Bully (2001) por Sofia

Infelizmente não é ficção. Larry Clark, famoso por ousar colocar nos seus filmes temas controversos que envolvem adolescentes, drogas, sexo, usou para este filme a história verdadeira do assassinato de Bobby Kent. Baseado num livro de Jim Schutze - Bully, A true story of high school revenge
Em Bully, assistimos ao quotidiano de um grupo de adolescentes, com foco principal em dois amigos - Marty Puccio (Brad Renfro) e Bobby Kent (Nick Stahl) - cuja relação aparentemente normal, é na realidade um tormento, que envolve maus tratos, prostituição e desrespeito. 




A estas duas personagens outras se juntam. O que os une: a adolescência, a parvoíce inerente a esta fase, a promiscuidade, o uso abusivo de drogas, a negligência parental e sobretudo o ódio por Bobby Kent.
Muitas coisas neste filme não passam despercebidas, sobretudo àqueles que já foram adolescentes, que erraram, mentiram e sobretudo aqueles que tiveram pressa em viver. Existe uma identificação com o filme, que no entanto, se desfaz no minuto em que percebemos que algo vai correr mal. E no momento que a estupidez da idade dá lugar à maldade e à ousadia de matar alguém. A violência da mensagem do filme, faz-nos colocar os pés na terra e rapidamente percebemos que uma pessoa morreu, no meio de uma usual noite de entre amigos. 




A morte de Bobby Kent ocorreu em 1993, na Flórida. Foi morto por sete adolescentes, sendo que o seu melhor amigo - Marty Puccio foi sentenciado à pena máxima. A relação de amizade entre estes dois rapazes, tal como aborda o filme, não era simples, envolvia raparigas, uma suposta violação, ameaças de morte, e bulling. 
Esta morte chocou os americanos, não só pela realidade violenta da mesma, mas por ter sido pensada e executada por adolescentes e sobretudo, porque muitos dos jovens que participaram neste esquema "requintado" nem sequer conheciam a vítima. Todos os jovens foram sentenciados, mas Marty Puccio, foi condenado à morte por cadeira eléctrica (mas segundo li, a sentença foi alterada para prisão perpétua - informação esta, que não consegui confirmar). Continuando num choque de realidade, o actor (Brad Renfro) - que iniciou a sua carreira em 1994 com o filme Client de Joel Schumacher e que em Bully interpreta Marty Puccio morreu em 2008, vitima de overdose de heroína, com 25 anos. 




Com a tagline "It's 4 a.m... do you know where your kids are?" é um filme violento, mas obrigatório. Uma chamada de atenção para pais e uma lição de vida para os jovens. No New York Times, em 2001 lia-se: "Bully é como um medicamento para o cancro: poderoso, difícil de engolir, mas necessário. Um Senhor das Moscas dos tempos modernos."

04/12/2011

A Dangerous Method (2011) por Sofia

[spoiler]

Even the celebrated spanking scene fails to knock much life into David Cronenberg's lugubrious tale of the tussle between Freud and Jung. Xan Brooks, The Guardian

A Dangerous Method is acclaimed director David Cronenberg’s best film in years. Owen Gleiberman, Entertainment Weekly

Given its long stretches of earnest and erudite scientific talk, “A Dangerous Method” might seem to be his calmest and most cerebral film yet. A.O. Scott, New York Times 

A Dangerous Method reeks of Oscar-bait — acclaimed actors playing historical figures while wearing celluloid collars and carrying parasols around old Europe. But sometimes a cigar is just a cigar, and a prestige piece is just a well-intentioned bore. Alonso Duralde, The Wrap

Cronenberg sticks close to the historical record, documented by letters and journals, while offering his interpretation of the facts. Given the specimens, much of the movie seems to unfold in a pristine petri dish. J. Hoberman, L.A. Weekley



Existem críticas e opiniões para todos os gostos, boas, más, assim-assim. De facto, olhando para o historial de Cronenberg, é estranho ver uma biografia história no currículo do mesmo realizador de Eastern Promises, A History of Violence, eXistenZ, Crash, The Fly, Scanner, etc. Mas questiono: é assim tão estanho ver sair da mente do realizador em causa, um filme cujo sentido de violência abandona o físico ou a ficção científica, se tivermos em conta que em 1993 este mesmo realizador ousou levar ao cinema o ousado filme M. Butterfly?
Recordemos rapidamente: China, espionagem, diplomacia, ópera, homossexualidade... e assim vistas as coisas, psicanálise parece-me simples.

No meio da blogosfera e até nas redes sociais, muito tenho lido sobre o filme e geralmente leio "esperava mais". Esperavam ver Freud transformar-se num monstro aligena e Jung viciado em desastres autómoveis. Ou quem sabe Sabina Spielrein, criadora de jogos interactivos? 
Talvez seja mesquinha no que diz respeito ao uso de fontes históricas ou leve demasiadamente a sério a questão "salvaguarda da memória" de duas, ou ouso dizer, três das pessoas mais importantes da época contemporânea. Mas existem coisas que a meu ver são intocáveis, e nisso Cronenberg foi totalmente respeitoso. Deixo outra questão: é obrigatório o cinema ir sempre além fronteiras e ousar ir além daquilo que existe? Não me parece quando de biografias se fala. Assim de repente, recordo-me de Oliver Stone em Alexander (2004) - o realizador quis ir mais além e a "aventura" não lhe correu bem. 
Podia igualmente ficar aqui a debater de forma infinita o que é que devia ser mais detalhado no filme, o que devia ter sido posto de lado, os exageros, as faltas de exactidão. Mas, como não acho que isso tenha acontecido, deixo essa parte da crítica chata, para quem queira. 






Cronenberg disse no Festival de Veneza que "esta é a minha primeira biografia convencional (... ) tento ressuscitar uma pessoa ou ressuscitar uma era” (...) "cada filme diz exactamente o que precisa”. “É um desafio, porque não podemos só fantasiar as pessoas e rodar”. Tudo isto como tem como pano de fundo uma proximidade à Guerra Mundial, que, nas palavras de Cronenberg, “pôs fim ao sonho de progresso e à assim chamada civilização europeia”.
Três exímios actores, três personagens históricas - Viggo Mortensen, Michael Fassbender, Keira Knightley, são respectivaente - Sigmund Freud, Carl Jung e Sabina Spielrein. No entanto outros dois actores merecem destaque: Vincent Cassel como Otto Gross (o psiquiatra psicótico) e Sarah Gadon que interpreta a mulher de Jung, Emma Jung
Já alguém imaginou a responsabilidade e a ousadia de colocar estas personagens em tela, bem como as teorias cientificas que defendiam? 
Agora recuem no tempo, situem-se no século XIX e XX (já com algumas diferenças e evoluções científicas) e pensem como é que a sociedade da época recebeu  as palavras e teorias que envolvem: neuroses, psicoses, perversões, sonhos, fantasias, histeria, sexo, libido, incesto, Édipo, Jensen, ego, semiótica. Ainda hoje, os cientistas da psicanálise são como que um mistério para a comunidade científica, até para nós - os comuns mortais, que temos tendência a "dar um sorriso" quando algumas destas palavras são usadas.






Para muitos, um sonho é um sonho, para os psicanalistas o sonho é uma forma de diagnóstico. Assunto bem focado no filme e ponto de ruptura entre Freud e Jung. Alguns dos críticos (pela negativa) do filme, consideram que Freud é pouco mencionado no filme, merecia mais - não sei se dizem isto porque queriam ver mais de Viggo, ou se nutrem de facto uma maior simpatia pelo cientista. Considero que Cronenberg fez propositadamente esta separação de personagens, dando talvez um maior enfanse a Jung - o pai da psicologia analítica e fazendo questão de mostrar o que os separa.
O filme preocupa-se em mostrar a união e o respeito mutuo entre os dois, mas é bastante claro naquilo que os divide. Tendo por base uma investigação histórica que teve como fonte, as cartas que os cientistas trocaram entre si, Cronenberg mostra as diferenças de forma clara. Jung não aceitava a justificação do trauma sexual para todos os conflitos psíquicos e Freud não aceitava que Jung se interessasse por fenómenos espirituais e religiosos.
Pouco tempo depois de cortarem relações, Freud - judeu, é perseguido pelos nazis, os seus livros são queimados e passam a constar na lista da literatura proibida, enquanto que Jung - suíço, torna-se um dos "pais da psiquiatria alemã". Muitos são aqueles que o consideram um defensor da causa "super-homem" e simpatizante das teorias de Adolf Hittler. Teoria esta, passível de controvérsia, pois é sabido que muitas das  obras de Jung também foram condenadas pelo regime nazi.




No meio destes dois homens, eis que surge Sabina Spielrein, intrepretada por Keira Knightley. Apesar de imaginar que tivesse sido soberbamente difícil  interpretar alguém que sofre de graves patologias, considero-a o "elo mais fraco" do filme. É uma interpretação muito física, mas mesmo no meio dos seus ataques, em que o corpo é conduzido por fortes espasmos, não a consigo levar muito a sério. Talvez a escolha da actriz  não tenha sido a mais feliz, ou talvez o problema seja só meu, pois não consigo ver em Keira uma russa judaica. 
A sua doença, o internamento e a relação com Jung é correcta. Alexandre Guerra escreveu no blog PiaR: "É uma mulher que entra doente numa clínica na Suíça e, anos mais tarde, esbate as suas debilidades e fragilidades para se colocar numa posição de força. E não tivesse sido morta pelos nazis (...), talvez tivesse sido tão influente para o século XX como foram Freud e Jung, sublinha Cronenberg."




Spielrein foi uma das primeiras mulheres psicanalistas do mundo. Em 1911, defendeu uma dissertação sobre um caso de esquizofrenia e nesse mesmo ano, tornou-se membro da Sociedade de Psicanálise de Viena. David Cronenberg centrou muito o filme nesta personagem. E porquê se tinha duas figuras que abafavam o lado feminino, pela importância que tiverem em vida e sobretudo após morte? É que Sabina doente, perturbada, louca - superou, curou-se. A doença dá lugar à cura, com esforço, determinação, com altos e baixos, com avanços e com recuos - superou através de método. Por muito perigoso que seja, depende do "eu", da vontade e do conhecimento - daquele que temos sobre nós, mas também daquele que temos sobre o que nos rodeia.

Com este filme Cronenberg grita bem alto: a humanidade necessita urgentemente de "método"... 


Uma nota extra para mencionar como incrível é o cenário "escritório de Freud". As prateleiras recheadas de livros e de estatuetas referentes ao divino feminino, são deliciosas. Reparem sobretudo na pré-histórica Vénus de Willendorf.

03/12/2011

Immortals (2011) por Sofia

[spoiler]

Quando vi o trailer de Immortals pela primeira vez pensei para comigo – sim, vais gostar! Depois de ter visto o filme, sou obrigada a concordar comigo própria… sim, gostei!
Os críticos de cinema – aqueles mais dados ao sério, que me desculpem, mas este é um daqueles filmes que me toca ao coração. A minha veia “investigação” abandona a racionalidade e dá lugar à paixão.



Longe de ser cinematograficamente perfeito – objectivo esse que não me parece ser a determinação principal de Tarsem Singh, é um orgasmo visual – fabulosamente gráfico do princípio ao fim. Mas, se me perguntarem se considero o 3D necessário… a resposta é não. Percebo a sua utilização no filme, mas tenho a certeza que mesmo sem esta tridimensionalidade, o filme iria ser igualmente soberbo a nível gráfico.
Qualquer filme que contenha um herói / líder retirado do "leque mitológico" e que tenha nos seus antepassados próximos um 300, um Troy, um Alexander e até um Spartacus vai sentir na pele a crítica feroz daqueles que medem tudo o que é filme, pela mesma régua. A mim, não me interessa, Teseu (Henry Cavill) não é Leónidas e Hyperion (Mickey Rourke) não é Xerxes – falamos de episódios diferentes.




Aqueles que têm a mente aberta e que conhecem relativamente bem a mitologia grega, sonham durante 110 minutos. Deuses, semi-deuses, imortais, mortais, oráculos, símbolos, mitos, lendas, tudo isto tem espaço em Immortals. Sim poderia ser melhor, mais detalhado talvez, mas certo é que isso ia tornar um filme de acção, num documentário sobre mitologia grega, e para isto existe o canal História.

No entanto, alguns detalhes têm que ser mencionados. Um dos erros está na personagem Hyperion. Interpretado por Mickey Rourke (que é, nada mais nada menos do que igual a si mesmo) é no filme uma espécie de mercenário ao serviço do mal. Mas na verdade, na mitologia grega Hyperion era filho do Deus Urano e de Gaia e era na verdade um Titã, portanto se Tarsem tivesse tido isto em conta, a personagem teria talvez tido mais força. Os Imortais também são algo que não está bem definido, são uma espécie de trogloditas com o dom da imortalidade, que a meu ver mereciam um melhor trato tendo em conta que são os únicos com o dom de fazerem com que os Deuses saíssem do Monte Olimpo e descessem à terra com a sua verdadeira forma física. Também com Fedra as coisas não são lineares. Fedra era na verdade filha do rei Minos (de Creta) e casa de forma "obrigada" com o rei Teseu (sim, Teseu foi Rei de Atenas) e toda a história entre estas duas personagens é uma tragédia grega e não o bonito romance que o filme aborda. 



Faltou a Teseu as sandálias e a espada do pai, faltou-lhe Ariadne, falta Atenas e faltaram as Amazonas. Temos o Minotauro e o labirinto, mas em versão muito soft. Existem falhas narrativas e históricas no filme. Mas sinceramente, penso que isso não é relevante. Os nossos olhos ficam tão exacerbados pelo factor visual que tudo o resto é acessório - mesmo àqueles olhos mais atentos e exigentes. Considero que esta mesma orgia visual, impede as divagações acerca das qualidades interpretativas de Henry Cavill, que muitos querem ver falhar “à força” no próximo filme da fasquia Superman. É um filme para pensar como um todo e não em detalhes mesquinhos.





Temos Zeus, temos Atena, Ares, Poseidon, Heracles, etc. E as cenas onde os deuses intervém, são fabulosas. Não sei se teremos um Immortals 2… mas Teseu era herói o suficiente para isso, no entanto a introdução de Acamas (filho de Teseu e Fedra) no fim do filme, faz-me suspeitar que a existir um segundo, vamos ter algo que envolva Tróia... 



Ora bem... a ver, por todo o refinamento visual onde tudo o resto é acessório!