04/03/2012

Hugo (2011) por Sofia


"This is a great director's greatest love story" - Empire

"Bursting with earned emotion, Hugo is a mechanism that comes to life at the turn of a key in the shape of a heart" - Time

"A fabulous and passionate love letter to the cinema and its preservation framed by the strenuous adventures of two orphans in 1930's Paris" - The Hollywood Reporter

"Hugo both ticks and flies by, a marvel meant to be pulled from the cabinet and enjoyed again and again" - Entertainment Weekly

"Magical and imaginative, this eye-popping masterpiece from director Martin Scorsese will transport audiences to a place they won't believe" - Boxoffice Magazine




Não me posso dar ao luxo de ousar contar o filme. É para ver, rever e voltar a ver. É para ver desprovido de qualquer spoiler. É uma ode ao Tempo, ao Cinema, à História, à Literatura (e ao Livro) e até à Ciência, delicioso em detalhes, genial nas interpretações simples do seu enredo. O olhar de Hugo Cabret (interpretado por Asa Butterfield) é absolutamente arrematador. O filme é uma aventura declarada, uma aventura que todos nós - aqueles que já fomos crianças (mas não só) - queríamos ter vivido. 
Obrigatório! 

«My friends, I address you all tonight as you truly are; wizards, mermaids, travelers, adventurers, magicians... Come and dream with me» (Georges Méliès)



19/02/2012

Beginners (2010) por Sofia

[spoiler]

"My parents got married in 1955, they had a child and they stayed married for 44 years, until my mother died. Six months later my father told me he was gay. I remember him wearing a purple sweater when he told me this, but actually he wore a robe. He was gay the whole time they were married."




Inícios, fins. Vida, morte. Homens, mulheres. Alegria, tristeza. Encobrir, assumir. Encontramos tudo isto neste filme de O objecto principal deste filme de Mike Mills é sem dúvida alguma - o amor. Pode ser resumido à quote que escolhi no inicio do post. Um pai (Christopher Plummer) que conta ao filho (Ewan McGregor) que é gay e um filho que além das tendências sexuais do pai, descobre que o mesmo tem uma doença terminal. O filho tudo faz para que o pai viva os últimos dias da sua vida da melhor forma possível, sendo mergulhado numa profunda tristeza e solidão quando o pai morre. Na fase mais complicada encontra Anna, uma jovem actriz francesa - interpretada por Mélanie Laurent, por quem se apaixona, mas ambos deparam-se com alguns problemas sentimentais, não só pela distancia, mas sobretudo pela ausência de modelos ou de habituação a demonstrações de afecto.





Não é de todo uma comédia, é um retrato sobre aparências, sobre a doença, sobre a solidão, e sobretudo sobre a indefinição do que é o amor, de como expressa-lo e sobretudo de como o sentir. Por vezes a narrativa é demasiadamente lenta, mas ao mesmo tempo esta lentidão é totalmente justificada pelos temas delicados que aborda. É verdadeiro. Christopher Plummer é um senhor, Laurent é delicada e McGregor competente, e o cão é um detalhe incrivelmente fabuloso.
Uma chamada de atenção especial para o incrível sentido estético de Mike Mills personificado nos desenhos que Oliver Fields (Ewan McGregor) faz ao longo filme, nos grafittis e nas imagens fotografias que dividem a narrativa e fazem o enquadramento cronológico ao longo do filme.





Martha Marcy May Marlene (2011) por Sofia

[spoiler]

Como gosto desta sensação de chegar ao fim de um filme e ter a cabeça a ser bombardeada por perguntas. Aliás a narrativa do filme é tão bem feita que ao longo do filme os "porquês", os "como", os "mas" e os "se's" estão sempre presentes. 



É um thriller fabuloso. Elizabeth Olsen é incrível e consegue mergulhar no mundo criado pelo realizador e guionista - Sean Durkin de forma espontânea, intensa e sobretudo emocional. Os cenários e a narrativa alteram entre um passado complicado e próximo e um presente tortuoso. Uma adolescente que foge de casa e que se vê envolvida numa espécie de seita ou comunidade, em que além da óbvia discriminação sexual, dos trabalhos no campo e da aparente anarquia perfeita, vive abusos sexuais e tudo é controlado por um líder abusivo. O medo, os assaltos a que é obrigada a participar e a iniciação de outras jovens aos rituais comuns levam a protagonista - Martha ou Marcy (a mesma pessoa) a fugir. 
Procura a irmã, procura uma fuga... mas a instabilidade psicológica, a ausencia de valores sociais e a incapacidade de comportamentos normais, acabam por tornar a jovem cheia de medos, paranóias e no limbo da insanidade mental. 




Ao longo do filme, os constantes flashbacks justificam a incapacidade mental de Martha, mas nunca nos deixam ter certezas absolutas. Será que aconteceu mesmo? Será que a adolescente viveu aquilo? Ou tudo não passará de truques e esquizofrenias da mente da jovem. No fim, o realizador faz um alerta ao perigo destas comunidades e seitas religiosas (ou não) que cada vez mais existem pelo mundo fora. O contexto social e financeiro que o mundo vive é propicio a estas ocas causas e utópicas filosofias de vida. Mas Sean Durkin consegue um filme perturbador e inteligente. Criamos uma empatia com a personagem principal - apetece-nos salva-la, mas ao mesmo tempo apetece-nos abana-la para a realidade da vida e sobretudo para receber de braços abertos, aquilo que a vida com a irmã e cunhado lhe pode oferecer. E no fim a dúvida assombra-nos: Martha corre realmente perigo de vida? Ou é tudo fruto da sua mente perturbada e alvo de abusos físicos e psíquicos?

Duas notas finais: Sean Durkin promete muito e a irmã mais nova das gémeas Olsen, Elizabeth também me parece que tem futuro. 



25/01/2012

The Descendants (2011) por Sofia

[spoiler]

O realizador Alexander Payne o mesmo de Sideways e About Schmidt já nos habituou a colocar na tela assuntos / histórias que abordam temas aparentemente banais. No entanto na banalidade dos temas, consegue dos actores que escolhe como protagonistas interpretações incríveis, tornando na verdade os enredos tudo, menos banais.



A história é basicamente a seguinte: um casal - o homem mergulhado no trabalho e com pouco tempo para se relacionar com as filhas e para "alimentar" o casamento. A mulher adultera está em coma. As filhas  são rebeldes e com graves problemas no que diz respeito à autoridade. 
O que é que há de novo aqui? Nada. já vimos esta história vezes sem conta - no cinema, na televisão, em literatura e até na casa dos vizinhos do lado. Então o que é que torna este filme tão aclamado pela crítica, considerado por muitos um dos dos "melhores de 2011" e - agora já sabemos - nomeado para cinco Óscars nas categorias de Melhor Filme, Melhor Actor Principal, Melhor Realizador, Melhor Montagem e Melhor Argumento Adaptado





Porque toda a simplicidade e banalidade da história em causa é espelhada na interpretação incrível de George Clooney. O actor usa e abusa da sua fisicalidade e até mesmo da sua aparente ausência de expressão facial - com ela mostra-nos sentimentos, estados de espírito e sobretudo o ridículo humano de que todos padecemos. O filme tira-nos um sorriso nervoso no meio de uma situação depressiva ou dramática e faz-nos ficar pensativos no meio de uma cena em que devíamos rir.

Se Clooney é deslumbrante como Matt King, as duas novatas Shailene Woodley (como Alexandra King) e Amara Miller (como Scottie King) dão um toque de graça e complementam de forma correcta e eficaz a soberba interpretação do protagonista. 
É a aura simplista do filme que cativa a atenção do espectador. É um filme sobre relações, traição, amor, ódio, perdão, descoberta, respeito e justiça. Também é possível pensar também no filme como uma lição de vida sobre a morte - aquela que todos esperamos um dia, mas para a qual dificilmente estamos preparados para a receber e aceitar. O toque de génio do filme é que é para ser visto com um sorriso na cara, mas ao mesmo tempo com uma lágrima inevitável e fácil.


23/01/2012

The Girl with the Dragon Tattoo (2011) por Sofia

[spoiler]

Sentei-me no cinema totalmente ausente de informações detalhadas. Não li os livros de Stieg Larsson, não vi as adaptações suecas e esforcei-me (como sempre) por não ler criticas (negativas ou positivas) sobre o filme. Mas tinha as expectativas altas, tudo me fascinou na publicitação ao filme - os trailers, os posters, as fotografias, as entrevistas dos protagonistas. As expectativas estavam ainda mais elevadas por Daniel Craig estar no elenco.



Dificilmente alguém entenderá este filme se não perceber aquilo que caracteriza os suecos, de forma resumida e sem entrar em grandes detalhes - contenção, impaciência, ironia, independência, fascinados por regras e viciados em noticias. Terra de Vikings e de suposta neutralidade na Segunda Guerra Mundial. A história por detrás do filme, é crua, violenta e tem na personagem Lisbeth Salander (interpretada por Rooney Mara) a prova da fragilidade aparente de um sistema de institucionalização e salvaguarda de "menores" oca e cheia de erros profundos. 

É uma história de investigação policial. Com um cheirinho a Poirot, Sherlock, Hitchcock e até Jessica Fletcher da série Murder, She Wrote. O cenário-crime no seio de uma família numerosa é sempre uma receita fantástica. Um desaparecimento, várias mortes. Todos são suspeitos, todos são testemunhas, todos são inocentes. Um enigma por desvendar, um puzzle por completar. As peças estiveram anos e anos à frente de todos, mas poucos as souberam ver e interpretar.




No decorrer do filme são lançadas várias pistas para a investigação e as personagens principais começam a ser misturadas no enredo, e ao mesmo tempo, são esmiuçadas as suas vidas, formas de ser e de estar. 
Mikael Blomkvist (Daniel Craig) um jornalista de investigação e sócio da revista Millenium, está envolvido num escândalo juridico e mediático com um alto elemento do mundo das finanças.
Lisbeth Salander (Rooney Mara) é uma espécie de "detective particular" inteligente e irreverente. Com uma história de vida dura, só, sobrevivente, lutadora, aparentemente desequilibrada, justiceira, vingativa, astuta e destemida. Será a companheira de Mikael na investigação do "crime familiar"
Henrik Vanger (Christopher Plummer) um empresário reformado, membro de uma familia conturbada e obcecado com o desaparecimento da sobrinha Harriet há 40 anos. Contrata Mikael para investigar este desaparecimento / morte. 
Martin Vanger (Stellan Skarsgård) sobrinho atento e preocupado de Henrik é um dos herdeiros da família Vanger e responsável pela empresa da família. 




David Fincher está habituado a personagens complexas, com problemas do foro psicologico, conteúdos violentos e personagens pouco sociais. Voltou a conseguir esse feito e conseguiu colocar no filme as características "tão suecas que os suecos têm". 
Tudo o que envolve a personagem Lisbeth é pensado ao detalhe - tatuagens, roupas, brincos, forma de ser, de estar, até de andar -  faz sentido com a carga que a personagem tem. Algumas cenas que a envolvem são de uma violência fria e cruel - fazendo lembrar momentos de Irréversible e até de The Accused. Violência esta que dificilmente é ignorada pelo espectador. 

Tenho que fazer destaque ao genérico inicial - é absolutamente fantástico. Faz lembrar um video de Woodkid ou algo produzido por Swizz Beatz para Jay-Z, por exemplo.
Sai do cinema com a sensação "quero mais". Quero ver esta dupla (Craig - Mara ou melhor dizendo Blomkvist-Salander) novamente.




Convido a visitarem o fabuloso site oficial do filme - aqui


Nota extra: a Daniel Craig até o cardigan mais simples fica brutalmente bem !

10/01/2012

Marie Antoinette (2006) por Sofia


Imaginem que este texto  tem como subtitulo: "quando um filme vai além do cinema"

É incontornável a necessidade de conhecer um bocadinho da biografia da "Viúva Capeto" antes de se esmiuçar o filme em causa. A Maria Antonieta que o filme aborda é o fruto de uma corte católica e rígida - a de Viena, que num acto de politica externa e diplomatica é obrigada a casar com o Delfim de França - Luis de Bourbon, o futuro Luís XVI. A presença de Maria na corte francesa tinha como objectivo máximo usar os potenciais políticos de forma a reconciliar as casa nobres (Habsburgo e Bourbon). 


Mas, na verdade, o deslumbramento pela corte francesa e pela vida palaciana de Versalhes, fez com que a futura rainha ficasse rodeada de luxo e de riqueza. Escolheu para estar ao seu lado, pessoas que considerava bonitas e elegantes (dispensando grande parte dos funcionários da corte), organizava festas, corridas, banquetes. Frequentava teatros, óperas, bailes. Partilhava charme e namoriscava com altos membros da nobreza. O Rei não se importava e até em certa forma incentivava a vida quase promiscua da sua mulher. A sua relação com determinadas amigas também ficou registada nas calendas da história. Mas foi também uma "humanista". Patrocinou teatro, estudou filosofia, política, história, literatura. Vestia o melhor e o mais luxuoso possível. Durante a sua estadia em Versalhes, França viveu um profundo período de divulgação cultural. 
É importante para a história pessoal da Rainha o Palácio Petit Trianon - espaço que serviu para Maria esconder as suas mágoas e talvez algumas gravidezes. Um pequeno luxo rural, rodeado de hortas e animais. Representa um lado mais simples da Rainha. 

Os tempos de paz na corte francesa tinha os dias contados. Os escândalos palacianos sucedem-se - e convém termos em conta que nesta época a política já ditava as suas sentenças e a monarquia era cada vez mais, um poder afastado. A estes enredos junta-se um inverno rigoroso, a falta de produção de alimentos, ao frio e a morte. O declinio de Antonieta tem o seu inicio. 
A Rainha era o símbolo vivo daquilo que os franceses odiavam e reprimiam na monarquia - o luxo e o gasto abusivo de dinheiro. Denominada de "madame déficit", sofreu uma campanha de difamação que a levou ao isolamento. A família real ficou presa no Palácio e mais tarde vão para Tulherias, sendo a sua sentença final sobejamente conhecida - guilhotina (morte por traição) a 16 de Outubro de 1793. 
A Revolução Francesa é o acontecimento histórico que marca o inicio da Época Contemporânea. 




Assim num olhar distante, temos isto tudo no filme, não temos? No entanto, será Marie Antoinette um filme histórico? 
Para mim não é um filme histórico, mas sim uma sátira histórica a uma determinada época da História.
É um filme sobre luxo, cultura, moda. 
Para mim ver este filme é quase que um deleite de detalhes estéticos. Este filme é semelhante a um desfile de Jean Paul Gaultier, Alexander McQueen ou até mesmo da dupla nacional Storytailors. Este filme é fotografia, música, gula e revolução. É a personificação da abastança num período em que pessoas morrem com fome. 
São os vestidos, os sapatos, a decoração. É Rousseau, é Voltaire, Kant, Montesquieu, é literatura, é arte, é música. 
Coppola com os seus planos demorados e fabulosos silêncios, mostra uma mulher fútil, mas mostra também alguém que se preocupa com os filhos, uma mulher sem medos e disposta a defender sempre aquilo em que acredita. Procurando em tudo "o bom". Kirsten Dunst é exímia. 
A realizadora procura mostrar uma mulher "modernamente contemporânea "num país em que os ideais "Liberdade, Igualdade e Fraternidade"  estão a nascer e sobretudo um país em que estes valores têm diferentes significados para diferentes pessoas e estratos sociais. 
Não deixo de questionar a aparente liberdade de um pais que condenou o luxo, que gritou bem alto os valores da partilha e da justiça social e que hoje em pleno século XXI, proibe a ostentação em via pública de objectos religiosos, sobretudo os muçulmanos. 



Não é um filme para todos, sobretudo para aqueles que embutidos nos valores bacocos da liberdade democrática da Revolução Francesa, não conseguem olhar  "para um além filme". É a história de uma mulher que durante a adolescencia foi abandonada numa corte estranha, com pessoas e valores estranhos. É a história da sobrevivência de uma mulher que se adapta à vida num palácio cheio mas vazio, em que  às suas próprias custas aprende e sobrevive à dificuldade de ser contemporânea num mundo recheado por valores tipicos de um Antigo Regime. 

Como todos os filmes de Sofia Coppola é obrigatório !

29/12/2011

Drive (2011) por Sofia

[spoiler]

Antes de falar sobre o filme, questiono (mais uma vez): como é que existem pessoas (críticos ou simples amantes de cinema) que argumentam que o cinema deixou de ousar, de criar ou de inovar, que deixou de conseguir criar filmes que podem tocar o patamar "culto", defendendo a ideia de que Hollywood deixou de ter imaginação e que corre sérios riscos de morte... Eis um exemplo que abalou pela positiva a critica. 




Alynda Wheat, People:
"Stylish and intense, with riveting performances... a great piece of Los Angeles noir about an icily controlled stunt/getaway driver... Gosling and Mulligan are magnetic..."

Jessica Winter, Time:
"...a gleaming, goofy action-thriller.... To invest oneself emotionally in the central relationship, or the movie itself, would be akin to investing oneself emotionally in one's car. But when the car looks this good and drives this fast, why not?" 

Christy Lemire, Associated Press: 
"...feels like an homage to early Michael Mann.... oozes sleek '80s style... offers some serious character actors in big, showy supporting performances, which offers the same sort of appealing, startling contrast as the film's violent streak." 

Lisa Schwarzbaum, Entertainment Weekly: 
"...revels in sensory detail; it's a visually and aurally edgy Euro-influenced American genre movie about the coolness of noir-influenced American genre movies about the coolness of driving -- especially in L.A." 

Peter Travers, Rolling Stone: 
"...a brilliant piece of nasty business that races on a B-movie track until it switches to the dizzying fuel of undiluted creativity. Damn, it's good. You can get buzzed just from the fumes coming off this wild thing." 

Claudia Puig, USA Today: 
"The look is artfully stylized, influenced by classic film noir; the mood is dark; the performances nuanced; and the story unnervingly exciting.... Thoroughly immersing..."


Pois é, Nicolas Winding Refn, provou que é possível inovar, supreender e cativar. Drive é inspirado e adaptado dum livro de 2005 de James Sallis com o mesmo título.
A história é verdadeiramente simples - a personagem principal, interpretada por Ryan Gosling tem uma vida dúbia - duplo de cinema, mecânico e condutor de fugas em assaltos. Solitário por natureza, envolve-se por amor num esquema de traições e perseguições que põem em causa a sua vida, mas sobretudo a vida da mulher  por quem se apaixonou (Irene, interpretada por Carey Mulligan), bem com do filho desta.




A personagem à qual Ryan dá vida, não tem nome, é simplesmente "o condutor" (Driver) ou como diz Shannon (dono da oficina e uma espécie de amigo, interpretado por Bryan Cranston) - "o miúdo", tem uma interpretação extraordinária, marcada pela ausência de palavras, mas dominada pela expressão facial e corporal. Percebemos que aquela pessoa é primeiro que tudo - um solitário, tem dificuldade em lidar com o mundo e sobretudo com as pessoas. Envolto num misto de ternura e de violência extrema - tem na estrada,  uma casa e no carro, um amigo. 
A história do filme, já a vimos muitas vezes - um revoltado, bandidos, carros, perseguições, paixão, desconfiança, adrenalina, etc. Em Drive encontramos certos detalhes que já vimos em Bullit (1968) ou em The French Connection (1971), por exemplo. Existe ainda muita critica a considerar este filme como sendo do "género noir" - percebo a associação, mas não me parece que esse fosse esse o objectivo propositado de Refn. Sim, temos sombras, contrastes, corrupção, questões morais, clichés, mas, a meu ver, a personagem principal não tem como missão final a eterna premissa do "fim justifica os meios". É um justiceiro, mas na verdade é um violento e perturbado justiceiro. 
Para terminar, uma menção honrosa a Cliff Martinez e ao seu trabalho no que à banda sonora diz respeito. Complementa fabulosamente o filme, dá-nos uma sonoridade típica dos anos 80 - com aqueles acordes míticos, e cada nota é adequada àquilo que os nossos olhos contemplam. 
É um filme brutal, pela sua simplicidade e pela forma crua e dura como a expõe. Será uma referência a 2011 para sempre. 


18/12/2011

Bully (2001) por Sofia

Infelizmente não é ficção. Larry Clark, famoso por ousar colocar nos seus filmes temas controversos que envolvem adolescentes, drogas, sexo, usou para este filme a história verdadeira do assassinato de Bobby Kent. Baseado num livro de Jim Schutze - Bully, A true story of high school revenge
Em Bully, assistimos ao quotidiano de um grupo de adolescentes, com foco principal em dois amigos - Marty Puccio (Brad Renfro) e Bobby Kent (Nick Stahl) - cuja relação aparentemente normal, é na realidade um tormento, que envolve maus tratos, prostituição e desrespeito. 




A estas duas personagens outras se juntam. O que os une: a adolescência, a parvoíce inerente a esta fase, a promiscuidade, o uso abusivo de drogas, a negligência parental e sobretudo o ódio por Bobby Kent.
Muitas coisas neste filme não passam despercebidas, sobretudo àqueles que já foram adolescentes, que erraram, mentiram e sobretudo aqueles que tiveram pressa em viver. Existe uma identificação com o filme, que no entanto, se desfaz no minuto em que percebemos que algo vai correr mal. E no momento que a estupidez da idade dá lugar à maldade e à ousadia de matar alguém. A violência da mensagem do filme, faz-nos colocar os pés na terra e rapidamente percebemos que uma pessoa morreu, no meio de uma usual noite de entre amigos. 




A morte de Bobby Kent ocorreu em 1993, na Flórida. Foi morto por sete adolescentes, sendo que o seu melhor amigo - Marty Puccio foi sentenciado à pena máxima. A relação de amizade entre estes dois rapazes, tal como aborda o filme, não era simples, envolvia raparigas, uma suposta violação, ameaças de morte, e bulling. 
Esta morte chocou os americanos, não só pela realidade violenta da mesma, mas por ter sido pensada e executada por adolescentes e sobretudo, porque muitos dos jovens que participaram neste esquema "requintado" nem sequer conheciam a vítima. Todos os jovens foram sentenciados, mas Marty Puccio, foi condenado à morte por cadeira eléctrica (mas segundo li, a sentença foi alterada para prisão perpétua - informação esta, que não consegui confirmar). Continuando num choque de realidade, o actor (Brad Renfro) - que iniciou a sua carreira em 1994 com o filme Client de Joel Schumacher e que em Bully interpreta Marty Puccio morreu em 2008, vitima de overdose de heroína, com 25 anos. 




Com a tagline "It's 4 a.m... do you know where your kids are?" é um filme violento, mas obrigatório. Uma chamada de atenção para pais e uma lição de vida para os jovens. No New York Times, em 2001 lia-se: "Bully é como um medicamento para o cancro: poderoso, difícil de engolir, mas necessário. Um Senhor das Moscas dos tempos modernos."