25/06/2012

Circumstance (2011) por Sofia




A história do filme de Maryam Keshavarz é aparentemente banal - duas adolescentes e as vivências típicas da idade - American Idol, bebidas, roupas, saltos altos, festas, etc. 
No entanto, tudo isto deixa de ser banal quando a esta equação se junta o cenário Irão, a dicotomia religião-cultura, drogas e a descoberta sexual. 
O filme de 2011 mostra uma abertura do mundo muçulmano ao panorama contemporâneo, mas mostra sobretudo o choque que é inserir estes novos valores e vivências numa sociedade alicerçada em valores seculares impostos pelo Corão.
Atafeh Hakimi  (interpretada por Nikohl Boosheri) faz parte de uma família moderna com posses, mas com um irmão que para fugir aos seus problemas com drogas envolve-se com o lado mais ortodoxo da religião, arrastando a sua família e a melhor (e mais íntima) amiga da irmã - Shireen Arshadi (interpretada por Sarah Kazemy). 
Longe de ser um filme explícito aborda os desejos comuns das jovens e da sua descoberta enquanto mulheres contemporâneas a tantas outras, mas envoltas num cenário onde tudo ou quase tudo é retrogrado. Uma visão muito interessante sobre um dos muitos problemas actuais da chamada "Primavera Árabe".




Nas entrelinhas é curiosa a menção feita no filme e personificada pelos pais de Atafeh à Revolução Iraniana de 1979 - revolução esta que depôs a Monarquia Autocrática e estabeleceu a República como regime vigente. Outra característica interessante é o facto de que os pais de Shireen são no filme a imagem omnipresente da presença  dos defensores de uma espécie de anti-revolução. 
Na data da revolução, argumentava-se a defesa pelos Direitos Humanos, mas muitos dos costumes ocidentais, costumes estes que para nós são normais, como o acesso à informação, o cinema, a música, a maquilhagem, as roupas mais ousadas, a homossexualidade, etc, continuaram a ser proibidos no Irão, pois são considerados elementos passiveis de corromper a juventude iraniana. 
Circumstance mostra a forma solitária, anónima e quase obscura que os jovens iranianos encontraram para ter acesso a tudo isto e a "batalha" diária que travam entre os costumes e a contemporaneidade. 




O filme venceu o Audience Award, no Festival Sundance Film Festival, de 2011. Um filme sobre o desejo de liberdade e um alerta para o Outono em que muitos muçulmanos ainda vivem - muitos por gosto, outros por opção, mas muitos por repressão. 

10/04/2012

História: dos livros à televisão

(texto criado para o blog TVDependente e publicado a 19/03/2012)


"Sofia Santos – 33 anos, a recibos verdes desde 2006. Sócia do David José Martins no Cine31. Viciada em Sofia Coppola e apaixonada pelos universos Tim Burton. Fascinada até ao tutano por Cinema, mas amante de Televisão em part-time. Ultimamente ando subjugada a Ryan Gosling e Michael Fassbender, mas também tenho reparado nas mamas da Scarlett – mamas estas que estão sempre à distância de um clique.

Aceitei o desafio do Vítor Rodrigues para escrever um texto sobre televisão neste famoso e respeitável blog – TVDependente. As escolhas poderiam ter sido muitas e inúmeras eram as possibilidades de abordagem, mas…foi assim que saiu:



Lamento mas não vou escrever sobre o Canal de História – essa instituição mítica que tantas vezes nos prende a atenção com os seus documentários exemplares, e que tantas outras dá-nos valentes e descansadas sestas.

Também não vou escrever sobre esse monumento nacional denominado José Hermano Saraiva – excelente comunicador, mas proibido em grande parte dos cursos superiores de História. É que saber que o D. Carlos no dia 23 de Outubro de 1890 tinha vestidas umas ceroulas cor de rosa, não é propriamente digno de ciência.

A nós – cientistas da História é dito em “tom de Lei” que sem fontes históricas a História não pode ser feita…mas também aprendemos que uma pintura, uma pedra ou um hieróglifo são fontes. Ora bem, quantas vezes olho para um quadro e além de ver um documento histórico, permito-me sonhar? Terá isto algum mal? Não me parece, sobretudo quando tenho a intenção de olhar por olhar e não de olhar para escrever um artigo cientifico.

E quantas vezes olhei para um filme histórico e além de sonhar, vi uma fonte histórica – acontece com vários exemplos, mas a excelência foi alcançada por dois monumentos – “Apocalyto” e “The Passion of The Christ” – monumentos estes que ultrapassam o factor filme e que permitem ensinar e apreender conhecimento. Um ensina que as civilizações têm a capacidade única de se auto-destruírem e outro ensina que a ganância pelo poder se oculta muitas vezes na religião, e que na História do Mundo só existiu um homem digno de ser denominado comunista – Jesus Cristo.

Pronto Sofia… respira fundo, conta até 3 e volta àquilo que interessa a este blog – Televisão.

Os mais exigentes devem estar a pensar, mas o que é que esta tipa está para aqui a escrever e a está a brindar-nos com uma valente seca sobre História e até já ousou falar de Cinema. É simples – esta introdução serviu para dizer que ultimamente a televisão tem ousado, tem fascinado e tem sobretudo dado ao público séries que são bons e competentes documentos históricos.

Escolhi mencionar duas (com um extra) séries históricas. Não as vou abordar no que ao argumento, realização e produção diz respeito – até porque já são abordadas aqui no blog, mas vou tentar dar a minha opinião e justificar porque é que as considero boas e competentes “fontes históricas”.

Ao longo da minha licenciatura em História tive vários amores, primeiro foi a Pré-História, mas depressa foi suplantando – não só pela desilusão que é viver num pais que não estima a sua História nem os seus antepassados e um pais em que as escavações que devem ser valorizadas e consideradas importantes são aquelas que vão dar origem a centros comerciais e não aquelas que desvendam vestígios do passado, mas sobretudo porque descobri as Civilizações Clássicas e mais tarde descobri a Época Moderna povoada pela Reforma, Contra-Reforma e o Renascimento e é assim que escolhi “Spartacus” e “The Tudors“, e uma referência mínima aos “The Borgias“.


SPARTACUS


Perde-se demasiado tempo a comparar esta série ao filme “300″… sim visualmente faz sentido mas Esparta é Grécia e não Roma – temo que pouca gente repare neste detalhe.


Resumo da série: sexo, suor, sangue…e isto resulta? Resulta tanto que até chateia. Resulta porque por detrás destes três “esses” está um retrato sobre a discriminação e as injustiças sociais – tão características daquela época. A série resulta porque nos transmite a ideia de que os gladiadores eram de facto mais do que escravos mas este estatuto não era fácil de alcançar sobretudo quando dependia da ganância dos dominus e restantes senhores mas também da crueldade do povo que vibrava por sangue e mais sangue nas arenas.

Spartacus foi um gladiador trácio e líder da famosa revolta de escravos, denominada “Guerra dos Escravos” (acontecimentos esses que estão neste momento a ser narrados na segunda/terceira season da série). O gladiador ficou registado nos Anais da História como símbolo de luta pelo abuso de poder romano, pela igualdade social e pela defesa dos oprimidos. A série foca muito bem estas características do personagem principal – a sua humanidade, a defesa daqueles que nada têm e a sua luta pela liberdade e justiça.

Ao longo da série desfilam detalhes que talvez passem ao lado dos mais distraídos – as refeições, os vinhos, os banhos, as vestes, os mercados, os esgotos e as latrinas públicas. Mas a série consegue ser eximia no que ao relato da intimidade diz respeito, ou melhor, na ausência da intimidade e da privacidade na cultura romana. O sexo era muitas vezes um acto partilhado, público. Promiscuidade para o mundo actual, normal na antiguidade clássica. Estas demonstrações públicas serviam não só para demonstrações de poder e status, mas também porque era de facto uma sociedade que apreciava o sexo por sexo e o corpo era digno de ser mostrado e partilhado.

Também as questões relacionadas com a homossexualidade, bissexualidade, pedofilia e até incesto é bem usada na série. Tudo isto era normal e bem aceite na sociedade. Também representa uma cultura em que os prazeres não tinham grandes limites, mas sobretudo em que também o sexo era um garante de poder.

Com personagens pouco vestidas, mas com outras recheadas de vestes dignas de Deuses e Deusas e assessórios de fazer inveja à Parfois. Com sujidade sexy e modos brutos… Uma série a ver, desprovidos de pudores e com o botão “play para a imaginação” carregado.


Spartacus: - Glory?

Crixus: - There is no greater thing than standing victorious in the arena.
Spartacus: - Is there no purpose… beyond the blood? No dream beyond the cheering crowd? Is there nothing else you fight for?

THE TUDORS


Costumo dizer que se pudesse viajar no tempo e escolher um espaço temporal para viver, seria à época de Henrique VIII que adorava ir. Sim, eu sei que o verdadeiro infelizmente não teve o fabuloso e incrível aspecto de Jonathan Rhys Meyers, mas teve uma das cortes mais fabulosas da História da humanidade.

Muitos foram aqueles que criticaram o facto de que na série toda a gente era bonita e bem vestida… quero lá saber. “The Tudors” tem tantas características positivas que até me esquecia desses deleites visuais.

Talvez os que não gostam de História, ou não conheçam esta época histórica não simpatizem de todo com a série – muitas vezes tão rica em informação que se podia tornar complicada de acompanhar.

A corte de Henrique VIII era uma espécie de “super embaixada” onde não só estavam representados os países aliados e inimigos, mas também músicos, pintores, escritores, etc.

A série faz questão de mostrar de forma fabulosa esta importância da corte e de todos os seus enredos palacianos. No séquito de Henrique VIII circulavam Thomas More, Thomas Wolsey, Thomas Cromwell, Thomas Wyatt, Hans Holbein, entre tantos outros. É claro que para muitos estes nomes são meros acessórios, mas para um olhar mais atento, é um desfile de personagens históricas que moldaram não só o mundo da época moderna, mas o mundo como conhecemos hoje. Um destaque para uma cena que ocorre no Vaticano e em que Miguel Ângelo está a fazer uma das suas birras esquizofrénicas e que o Papa mostra a sua expressão de cansaço mental perante tal pessoa…é um toque de génio de Michael Hirst.

Outra coisa que “The Tudors” mostra é que de facto, Henrique VIII era muito mais do que “um mulherengo”, era um estratega, um político, um homem que queria ter o poder total do seu reinado, mas se possível – do mundo. Tudo o que fez tinha este objectivo preciso.

Das várias mulheres que teve, Ana Bolena foi a que mais ênfase teve – não pelos seus bonitos olhos, ou por talentos especiais no vale dos lençóis. Bolena conquistou Henrique VIII porque lhe deu a conhecer um mundo além Inglaterra. A futura Rainha viveu em França, e quando regressou a Inglaterra trazia um conhecimento vasto daquilo que o Renascimento estava a gerar na “Europa continental”. Foi no momento em que Henrique VIII encontrou a obra magistral de Maquiavel – O Príncipe – que descobriu que podia ser muito mais do que Rei, podia ter o poder da religião nas suas mãos e com isso podia ser uma espécie de “Deus na Terra” – o corte diplomático com o Vaticano e a criação da Igreja Anglicana não foram causados pela ânsia de se casar com Ana Bolena, mas sim num acto inteligente de adquirir o poder total. E isto a série mostra muito bem.

Ao longo dos vários episódios das quatro temporadas, assistimos ao auge e à queda de um homem que governou um reino durante 38 anos (se a memória não me falha) – assistimos aos seus momentos gloriosos e a momentos em que foi menos feliz. Um homem que se preocupou com a política, com as finanças, com a cultura e pai de uma das mais brilhantes mulheres da História – Elizabeth – personagem esta que também seria uma excelente inspiração para uma série.

A ver e a reparar nos detalhes – não só dos cenários, das vestes, mas no desfile de personagens e sobretudo naquilo a que se chama “Diplomacia”.

King Henry VIII: - You think you know a story, but you only know how it ends. To get to the heart of the story, you have to go back to the beginning.

Não consegui parar de escrever sem fazer uma menção à série:


THE BORGIAS


No momento em que soube que ia surgir uma série sobre a família Borgia e que iria ter Jeremy Irons no seu elenco, tremi. Que ideia genial.

Na primeira season viajamos ao Vaticano do século XV e assistimos à transformação de Rodrigo Borgia em Alexandre VI e como Neil Jordan foi feliz a contar-nos esta primeira fase da história dos temidos e inigualáveis Borgia.

É difícil percebermos hoje o choque diplomático que ocorreu na Igreja instituição, no momento em que um homem nobre, de descendência espanhola chegou ao papado. Alcançou este estatuto através da fortuna, e do suborno e com ele, chegou ao Vaticano, a intriga, as disputas, a traição, o sexo e a luxúria. Sim, alegrou de facto aqueles frios corredores!

Se a série continuar a cumprir este desfile de características únicas desta família única, prometo que na segunda temporada, vamos continuar a ter todos estes deleites corporais, religiosos, diplomáticos e políticos. E preparem-se para ver uma Lucrécia especial e um César peculiar. Têm muito, mas mesmo muito para mostrar e nós, para ver."

Pope Alexander: - What the Holy Church needs at this juncture is someone who can ensure its survival by whatever means necessary.

04/03/2012

Hugo (2011) por Sofia


"This is a great director's greatest love story" - Empire

"Bursting with earned emotion, Hugo is a mechanism that comes to life at the turn of a key in the shape of a heart" - Time

"A fabulous and passionate love letter to the cinema and its preservation framed by the strenuous adventures of two orphans in 1930's Paris" - The Hollywood Reporter

"Hugo both ticks and flies by, a marvel meant to be pulled from the cabinet and enjoyed again and again" - Entertainment Weekly

"Magical and imaginative, this eye-popping masterpiece from director Martin Scorsese will transport audiences to a place they won't believe" - Boxoffice Magazine




Não me posso dar ao luxo de ousar contar o filme. É para ver, rever e voltar a ver. É para ver desprovido de qualquer spoiler. É uma ode ao Tempo, ao Cinema, à História, à Literatura (e ao Livro) e até à Ciência, delicioso em detalhes, genial nas interpretações simples do seu enredo. O olhar de Hugo Cabret (interpretado por Asa Butterfield) é absolutamente arrematador. O filme é uma aventura declarada, uma aventura que todos nós - aqueles que já fomos crianças (mas não só) - queríamos ter vivido. 
Obrigatório! 

«My friends, I address you all tonight as you truly are; wizards, mermaids, travelers, adventurers, magicians... Come and dream with me» (Georges Méliès)



19/02/2012

Beginners (2010) por Sofia

[spoiler]

"My parents got married in 1955, they had a child and they stayed married for 44 years, until my mother died. Six months later my father told me he was gay. I remember him wearing a purple sweater when he told me this, but actually he wore a robe. He was gay the whole time they were married."




Inícios, fins. Vida, morte. Homens, mulheres. Alegria, tristeza. Encobrir, assumir. Encontramos tudo isto neste filme de O objecto principal deste filme de Mike Mills é sem dúvida alguma - o amor. Pode ser resumido à quote que escolhi no inicio do post. Um pai (Christopher Plummer) que conta ao filho (Ewan McGregor) que é gay e um filho que além das tendências sexuais do pai, descobre que o mesmo tem uma doença terminal. O filho tudo faz para que o pai viva os últimos dias da sua vida da melhor forma possível, sendo mergulhado numa profunda tristeza e solidão quando o pai morre. Na fase mais complicada encontra Anna, uma jovem actriz francesa - interpretada por Mélanie Laurent, por quem se apaixona, mas ambos deparam-se com alguns problemas sentimentais, não só pela distancia, mas sobretudo pela ausência de modelos ou de habituação a demonstrações de afecto.





Não é de todo uma comédia, é um retrato sobre aparências, sobre a doença, sobre a solidão, e sobretudo sobre a indefinição do que é o amor, de como expressa-lo e sobretudo de como o sentir. Por vezes a narrativa é demasiadamente lenta, mas ao mesmo tempo esta lentidão é totalmente justificada pelos temas delicados que aborda. É verdadeiro. Christopher Plummer é um senhor, Laurent é delicada e McGregor competente, e o cão é um detalhe incrivelmente fabuloso.
Uma chamada de atenção especial para o incrível sentido estético de Mike Mills personificado nos desenhos que Oliver Fields (Ewan McGregor) faz ao longo filme, nos grafittis e nas imagens fotografias que dividem a narrativa e fazem o enquadramento cronológico ao longo do filme.





Martha Marcy May Marlene (2011) por Sofia

[spoiler]

Como gosto desta sensação de chegar ao fim de um filme e ter a cabeça a ser bombardeada por perguntas. Aliás a narrativa do filme é tão bem feita que ao longo do filme os "porquês", os "como", os "mas" e os "se's" estão sempre presentes. 



É um thriller fabuloso. Elizabeth Olsen é incrível e consegue mergulhar no mundo criado pelo realizador e guionista - Sean Durkin de forma espontânea, intensa e sobretudo emocional. Os cenários e a narrativa alteram entre um passado complicado e próximo e um presente tortuoso. Uma adolescente que foge de casa e que se vê envolvida numa espécie de seita ou comunidade, em que além da óbvia discriminação sexual, dos trabalhos no campo e da aparente anarquia perfeita, vive abusos sexuais e tudo é controlado por um líder abusivo. O medo, os assaltos a que é obrigada a participar e a iniciação de outras jovens aos rituais comuns levam a protagonista - Martha ou Marcy (a mesma pessoa) a fugir. 
Procura a irmã, procura uma fuga... mas a instabilidade psicológica, a ausencia de valores sociais e a incapacidade de comportamentos normais, acabam por tornar a jovem cheia de medos, paranóias e no limbo da insanidade mental. 




Ao longo do filme, os constantes flashbacks justificam a incapacidade mental de Martha, mas nunca nos deixam ter certezas absolutas. Será que aconteceu mesmo? Será que a adolescente viveu aquilo? Ou tudo não passará de truques e esquizofrenias da mente da jovem. No fim, o realizador faz um alerta ao perigo destas comunidades e seitas religiosas (ou não) que cada vez mais existem pelo mundo fora. O contexto social e financeiro que o mundo vive é propicio a estas ocas causas e utópicas filosofias de vida. Mas Sean Durkin consegue um filme perturbador e inteligente. Criamos uma empatia com a personagem principal - apetece-nos salva-la, mas ao mesmo tempo apetece-nos abana-la para a realidade da vida e sobretudo para receber de braços abertos, aquilo que a vida com a irmã e cunhado lhe pode oferecer. E no fim a dúvida assombra-nos: Martha corre realmente perigo de vida? Ou é tudo fruto da sua mente perturbada e alvo de abusos físicos e psíquicos?

Duas notas finais: Sean Durkin promete muito e a irmã mais nova das gémeas Olsen, Elizabeth também me parece que tem futuro. 



25/01/2012

The Descendants (2011) por Sofia

[spoiler]

O realizador Alexander Payne o mesmo de Sideways e About Schmidt já nos habituou a colocar na tela assuntos / histórias que abordam temas aparentemente banais. No entanto na banalidade dos temas, consegue dos actores que escolhe como protagonistas interpretações incríveis, tornando na verdade os enredos tudo, menos banais.



A história é basicamente a seguinte: um casal - o homem mergulhado no trabalho e com pouco tempo para se relacionar com as filhas e para "alimentar" o casamento. A mulher adultera está em coma. As filhas  são rebeldes e com graves problemas no que diz respeito à autoridade. 
O que é que há de novo aqui? Nada. já vimos esta história vezes sem conta - no cinema, na televisão, em literatura e até na casa dos vizinhos do lado. Então o que é que torna este filme tão aclamado pela crítica, considerado por muitos um dos dos "melhores de 2011" e - agora já sabemos - nomeado para cinco Óscars nas categorias de Melhor Filme, Melhor Actor Principal, Melhor Realizador, Melhor Montagem e Melhor Argumento Adaptado





Porque toda a simplicidade e banalidade da história em causa é espelhada na interpretação incrível de George Clooney. O actor usa e abusa da sua fisicalidade e até mesmo da sua aparente ausência de expressão facial - com ela mostra-nos sentimentos, estados de espírito e sobretudo o ridículo humano de que todos padecemos. O filme tira-nos um sorriso nervoso no meio de uma situação depressiva ou dramática e faz-nos ficar pensativos no meio de uma cena em que devíamos rir.

Se Clooney é deslumbrante como Matt King, as duas novatas Shailene Woodley (como Alexandra King) e Amara Miller (como Scottie King) dão um toque de graça e complementam de forma correcta e eficaz a soberba interpretação do protagonista. 
É a aura simplista do filme que cativa a atenção do espectador. É um filme sobre relações, traição, amor, ódio, perdão, descoberta, respeito e justiça. Também é possível pensar também no filme como uma lição de vida sobre a morte - aquela que todos esperamos um dia, mas para a qual dificilmente estamos preparados para a receber e aceitar. O toque de génio do filme é que é para ser visto com um sorriso na cara, mas ao mesmo tempo com uma lágrima inevitável e fácil.


23/01/2012

The Girl with the Dragon Tattoo (2011) por Sofia

[spoiler]

Sentei-me no cinema totalmente ausente de informações detalhadas. Não li os livros de Stieg Larsson, não vi as adaptações suecas e esforcei-me (como sempre) por não ler criticas (negativas ou positivas) sobre o filme. Mas tinha as expectativas altas, tudo me fascinou na publicitação ao filme - os trailers, os posters, as fotografias, as entrevistas dos protagonistas. As expectativas estavam ainda mais elevadas por Daniel Craig estar no elenco.



Dificilmente alguém entenderá este filme se não perceber aquilo que caracteriza os suecos, de forma resumida e sem entrar em grandes detalhes - contenção, impaciência, ironia, independência, fascinados por regras e viciados em noticias. Terra de Vikings e de suposta neutralidade na Segunda Guerra Mundial. A história por detrás do filme, é crua, violenta e tem na personagem Lisbeth Salander (interpretada por Rooney Mara) a prova da fragilidade aparente de um sistema de institucionalização e salvaguarda de "menores" oca e cheia de erros profundos. 

É uma história de investigação policial. Com um cheirinho a Poirot, Sherlock, Hitchcock e até Jessica Fletcher da série Murder, She Wrote. O cenário-crime no seio de uma família numerosa é sempre uma receita fantástica. Um desaparecimento, várias mortes. Todos são suspeitos, todos são testemunhas, todos são inocentes. Um enigma por desvendar, um puzzle por completar. As peças estiveram anos e anos à frente de todos, mas poucos as souberam ver e interpretar.




No decorrer do filme são lançadas várias pistas para a investigação e as personagens principais começam a ser misturadas no enredo, e ao mesmo tempo, são esmiuçadas as suas vidas, formas de ser e de estar. 
Mikael Blomkvist (Daniel Craig) um jornalista de investigação e sócio da revista Millenium, está envolvido num escândalo juridico e mediático com um alto elemento do mundo das finanças.
Lisbeth Salander (Rooney Mara) é uma espécie de "detective particular" inteligente e irreverente. Com uma história de vida dura, só, sobrevivente, lutadora, aparentemente desequilibrada, justiceira, vingativa, astuta e destemida. Será a companheira de Mikael na investigação do "crime familiar"
Henrik Vanger (Christopher Plummer) um empresário reformado, membro de uma familia conturbada e obcecado com o desaparecimento da sobrinha Harriet há 40 anos. Contrata Mikael para investigar este desaparecimento / morte. 
Martin Vanger (Stellan Skarsgård) sobrinho atento e preocupado de Henrik é um dos herdeiros da família Vanger e responsável pela empresa da família. 




David Fincher está habituado a personagens complexas, com problemas do foro psicologico, conteúdos violentos e personagens pouco sociais. Voltou a conseguir esse feito e conseguiu colocar no filme as características "tão suecas que os suecos têm". 
Tudo o que envolve a personagem Lisbeth é pensado ao detalhe - tatuagens, roupas, brincos, forma de ser, de estar, até de andar -  faz sentido com a carga que a personagem tem. Algumas cenas que a envolvem são de uma violência fria e cruel - fazendo lembrar momentos de Irréversible e até de The Accused. Violência esta que dificilmente é ignorada pelo espectador. 

Tenho que fazer destaque ao genérico inicial - é absolutamente fantástico. Faz lembrar um video de Woodkid ou algo produzido por Swizz Beatz para Jay-Z, por exemplo.
Sai do cinema com a sensação "quero mais". Quero ver esta dupla (Craig - Mara ou melhor dizendo Blomkvist-Salander) novamente.




Convido a visitarem o fabuloso site oficial do filme - aqui


Nota extra: a Daniel Craig até o cardigan mais simples fica brutalmente bem !

10/01/2012

Marie Antoinette (2006) por Sofia


Imaginem que este texto  tem como subtitulo: "quando um filme vai além do cinema"

É incontornável a necessidade de conhecer um bocadinho da biografia da "Viúva Capeto" antes de se esmiuçar o filme em causa. A Maria Antonieta que o filme aborda é o fruto de uma corte católica e rígida - a de Viena, que num acto de politica externa e diplomatica é obrigada a casar com o Delfim de França - Luis de Bourbon, o futuro Luís XVI. A presença de Maria na corte francesa tinha como objectivo máximo usar os potenciais políticos de forma a reconciliar as casa nobres (Habsburgo e Bourbon). 


Mas, na verdade, o deslumbramento pela corte francesa e pela vida palaciana de Versalhes, fez com que a futura rainha ficasse rodeada de luxo e de riqueza. Escolheu para estar ao seu lado, pessoas que considerava bonitas e elegantes (dispensando grande parte dos funcionários da corte), organizava festas, corridas, banquetes. Frequentava teatros, óperas, bailes. Partilhava charme e namoriscava com altos membros da nobreza. O Rei não se importava e até em certa forma incentivava a vida quase promiscua da sua mulher. A sua relação com determinadas amigas também ficou registada nas calendas da história. Mas foi também uma "humanista". Patrocinou teatro, estudou filosofia, política, história, literatura. Vestia o melhor e o mais luxuoso possível. Durante a sua estadia em Versalhes, França viveu um profundo período de divulgação cultural. 
É importante para a história pessoal da Rainha o Palácio Petit Trianon - espaço que serviu para Maria esconder as suas mágoas e talvez algumas gravidezes. Um pequeno luxo rural, rodeado de hortas e animais. Representa um lado mais simples da Rainha. 

Os tempos de paz na corte francesa tinha os dias contados. Os escândalos palacianos sucedem-se - e convém termos em conta que nesta época a política já ditava as suas sentenças e a monarquia era cada vez mais, um poder afastado. A estes enredos junta-se um inverno rigoroso, a falta de produção de alimentos, ao frio e a morte. O declinio de Antonieta tem o seu inicio. 
A Rainha era o símbolo vivo daquilo que os franceses odiavam e reprimiam na monarquia - o luxo e o gasto abusivo de dinheiro. Denominada de "madame déficit", sofreu uma campanha de difamação que a levou ao isolamento. A família real ficou presa no Palácio e mais tarde vão para Tulherias, sendo a sua sentença final sobejamente conhecida - guilhotina (morte por traição) a 16 de Outubro de 1793. 
A Revolução Francesa é o acontecimento histórico que marca o inicio da Época Contemporânea. 




Assim num olhar distante, temos isto tudo no filme, não temos? No entanto, será Marie Antoinette um filme histórico? 
Para mim não é um filme histórico, mas sim uma sátira histórica a uma determinada época da História.
É um filme sobre luxo, cultura, moda. 
Para mim ver este filme é quase que um deleite de detalhes estéticos. Este filme é semelhante a um desfile de Jean Paul Gaultier, Alexander McQueen ou até mesmo da dupla nacional Storytailors. Este filme é fotografia, música, gula e revolução. É a personificação da abastança num período em que pessoas morrem com fome. 
São os vestidos, os sapatos, a decoração. É Rousseau, é Voltaire, Kant, Montesquieu, é literatura, é arte, é música. 
Coppola com os seus planos demorados e fabulosos silêncios, mostra uma mulher fútil, mas mostra também alguém que se preocupa com os filhos, uma mulher sem medos e disposta a defender sempre aquilo em que acredita. Procurando em tudo "o bom". Kirsten Dunst é exímia. 
A realizadora procura mostrar uma mulher "modernamente contemporânea "num país em que os ideais "Liberdade, Igualdade e Fraternidade"  estão a nascer e sobretudo um país em que estes valores têm diferentes significados para diferentes pessoas e estratos sociais. 
Não deixo de questionar a aparente liberdade de um pais que condenou o luxo, que gritou bem alto os valores da partilha e da justiça social e que hoje em pleno século XXI, proibe a ostentação em via pública de objectos religiosos, sobretudo os muçulmanos. 



Não é um filme para todos, sobretudo para aqueles que embutidos nos valores bacocos da liberdade democrática da Revolução Francesa, não conseguem olhar  "para um além filme". É a história de uma mulher que durante a adolescencia foi abandonada numa corte estranha, com pessoas e valores estranhos. É a história da sobrevivência de uma mulher que se adapta à vida num palácio cheio mas vazio, em que  às suas próprias custas aprende e sobrevive à dificuldade de ser contemporânea num mundo recheado por valores tipicos de um Antigo Regime. 

Como todos os filmes de Sofia Coppola é obrigatório !