21/06/2016

Opinião ● The Diary of a Teenage Girl | Marielle Heller. 2015


Estamos em 1976, Minnie tem 15 anos, vive em Los Angeles e é obcecada por sexo. É o assunto que domina as suas conversas, desabafos e desenhos.

Quando perde a virgindade e embarca numa relação sexual com o namorado da mãe (20 anos mais velho que ela) a sua lascívia torna-se muito mais complexa.


Existem inúmeros filmes sobre adolescência e sobre a descoberta da sexualidade mas existem poucos (ou quase nenhuns) que abordem este assunto de uma perspectiva feminina. O filme estreia de Marielle Heller como realizadora consegue esse feito e mais… é um filme sobre sexo com uma personagem menor de idade e usa uma abordagem que não é de todo vitimizada. 

Esta opção de abordagem em relação à menor e à sua relação com sexo pode chocar muitos e pode levar a debates sociólogos e até criminais que podem levar às perguntas: Pode uma criança de 15 anos tomar decisões maduras no que diz respeito a sexo? Será que um homem que tem relações sexuais com uma rapariga de 15 anos deve ser julgado como criminoso ou violador?

Numa entrevista ao The Huffington Post, a realizadora e a autora da novela gráfica (autobiográfica) Phoebe Gloeckner, falaram sobre esta vertente precoce da sexualidade feminina. “I was always curious about sex. My mother had Lolita and Naked Lunch. Anything with a title like that, I would read. (…) I would get so angry when I read some of those things because I just felt like something was wrong — and I couldn’t figure out what” disse Gloeckner. 

Marielle Heller reparou que a relação de Minnie com sexo (no livro) era algo especial, não por ser uma rapariga peculiar mas precisamente pelo contrário. A realizadora acredita que Minnie é igual às outras adolescentes mas que há pouca coragem de fazer esta afirmação e há sobretudo dificuldade em expô-la. “The narrative I was given as a teenage girl was that boys are going to be the ones who think about sex. Boys are going to be the ones who want to have sex. You’re not going to want to have sex,” (…)“That’s incredibly confusing because girls often develop before boys and sometimes want to have sex first. It makes you feel like something is wrong with you — or that maybe you’re a guy,” argumenta Heller. 












A extraordinária Bel Powley (Minnie) tinha 20 anos quando The Diary of a Teenage Girl foi filmado mas na verdade, pelo seu aspecto e postura, a actriz parece ser mesmo uma adolescente. Tem o olhar inocente e curioso de uma criança misturado com um ar de sedução (nem sempre inocente) e de ânsia pela descoberta. Bel não teve uma tarefa fácil ao partilhar o ecrã com a talentosa Kristen Wiig que interpreta Charlotte - a embriagada, desatenta e incapaz mãe. Charlotte é deslumbrante, uma espécie de boneca barroca - linda por fora, vazia por dentro. Cabe a Alexander Skarsgård (um perfeito imperfeito de 1,94m), interpretar Monroe, o namorado da mãe. Um sem escrúpulos simpático e sexy, dissimulado e pecado andante ou pedófilo para alguns. 

Tudo aquilo que possamos adjectivar em relação a Monroe depende da nossa interpretação da história e da forma como apreendemos o facto de que na realidade se trata de um adulto que tem relações sexuais com uma menor. O filme decorre numa Califórnia de 1976 em que (tal como hoje) a maioridade é atingida aos 18 anos. A mistura constante de álcool, cocaína e ecstasy (usadas por todas as personagens) não facilita na escolha de critérios na hora do julgamento moral. 

A realizadora Marielle Heller consegue abstrair-se de qualquer julgamento, excepto com a abordagem clara e negligente da mãe da personagem principal. Deixa, sabiamente esse papel aos espectadores. Cabe a nós julgar ou não Monroe, perdoar ou culpabilizar Minnie pelas suas atitudes infantis ou adultas – que também cabe ao espectador reflectir sobre o facto de serem simplesmente eróticas ou experimentais. 

Como o título anuncia, o filme explora o diário de uma adolescente (complexa), a sua história, a sua vida e o seu prazer e expõe intenções logo no primeiro instante do argumento ao indicar – de forma pura e animada: “I had sex today”. 

No seu quarto – com posters de Iggy Pop e de Janis Joplin em plano principal - Minnie começa a gravar cassetes, tendo um gravador como diário onde vai desabafar os seus desejos, sonhos, medos e segredos impuros.  

Seria fácil se resumíssemos o filme e considerássemos Minnie uma vítima, Monroe o vilão, mas o filme de Heller não julga nem é assim tão linear. Monroe não é um exemplo de homem mas a relação com este homem adulto e experiente é determinante para Minnie, para o seu auto-conhecimento e sobretudo para o seu desenvolvimento e transformação em Mulher. 

Quanto aos julgamentos ou conclusões ficam inteiramente ao critério do espectador. 


“So, maybe nobody loves me. Maybe nobody will ever love me. 
But maybe it’s not about being loved by somebody else.”


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