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02/03/2018

Opinião ▪ Lady Bird | Greta Gerwig. 2017




Em Sacramento (Califórnia), em 2000, uma peculiar jovem adolescente de 17 anos faz a sua entrada na vida adulta. 

É este o mote do filme Lady Bird de Greta Gerwig. Os talentos de Greta como atriz são sobejamente conhecidos mas a sua estreia na realização entra diretamente na mesma lista de Woody Allen e Richard Linklater ao criar um filme sobre a vida, sobre os momentos afortunados desta mas também sobre os infelizes, sobre os prazeres mas também sobre os infortúnios. Lady Bird é inocentemente sincero e mostra personagens que são retratos de pessoas reais e com as quais nos identificamos. 

21/02/2018

Opinião ▪ I, Tonya | Craig Gillespie. 2017



A maioria das biografias tendem a ser exercícios laudatórios. Mostram pessoas que superaram adversidades, que triunfam perante perseguições, que venceram guerras, disputas políticas ou que superaram doenças ou dependências. Ora bem, I, Tonya vai muito além de tudo isto. Esqueçam tudo o que até hoje sabiam ou julgavam saber sobre biografias. Se, habitualmente, uma narrativa biográfica celebra a história ou vida de alguém, no filme de Craig Gillespie o intuito é dado logo no início do filme: “You either love Tonya or you’re not a big fan. Kind of like how people either love America or they’re not a big fan. And Tonya was very American.


14/02/2018

Opinião ▪ Black Panther | Ryan Coogler. 2018



Heróis, super-heróis, deuses, semideuses, mutantes e afins. Ultimamente o mundo do Cinema está cheio de personagens oriundas dos universos criados pela DC e pela Marvel. Alguns projectos são bem sucedidos, outros são verdadeiros tiros no pé. Neste tipo de filmes, os fãs, os simpatizantes e aqueles que abominam todo o tipo de adaptação da BD à Sétima Arte não podem nem devem esperar argumentos intensos, devem esperar filmes de acção, que distraiam e que por cerca de duas horas, divirtam.

A DC não anda nos seus melhores dias e com a sua última aposta, Justice League, prova que grandes elencos não fazem bons filmes. O filme é sofrível do principio ao fim, falta de empatia entre personagens, argumento fraquíssimo, história básica e efeitos especiais muito pouco competente (sim! a questão do bigode de Henry Cavill). A Marvel tem conseguido superar algumas provas e isso é alcançado porque têm tido a habilidade de fazer bons castings, construir bons elencos e tem tido no humor, a sua arma chave.

Mas, este texto, pretende ter Black Panther é o tema central, e que belo e bonito tema é. Com este novo capítulo, a Marvel superou muitas provas e arriscou ao fazer uma ode a África.


25/01/2018

Opinião ▪ The End of The F***ing World. T1



8 episódios, menos de 3 horas em que cada minuto vale a pena.

Baseada na novela gráfica de Charles Forsman, a série The End of The F***ing World, escrita Charlie Covell e realizada por Jonathan Entwistle e Lucy Tcherniak, conta a história de dois adolescentes problemáticos, James (Alex Lawther) e Alyssa (Jessica Barden), e a sua aventura pelo desconhecido. Relata como e por que fugiram de casa, a descoberta dos seus limites, a procura pelo auto-conhecimento e, sobretudo, a sua luta pela sobrevivência.

17/01/2018

Opinião ▪ Call Me by Your Name | Luca Guadagnino. 2017



Em Itália do final do anos 80, Elio de dezassete anos, inicia um relacionamento com Oliver, o assistente do pai que é um conceituado professor de Cultura Clássica. Entre os dois nasce uma relação especial, emoldurada num cenário paradisíaco.

Caros leitores, não se deixem enganar pela falsa publicidade ou pelas opiniões mais tendenciosas, Call Me by Your Name não merece nenhum tipo de rótulo simplista. É um filme sobre crescimento, vulnerabilidade, sexualidade, descoberta, mas sobretudo sobre amor.


27/11/2017

Opinião ▪ Beach Rats | Eliza Hittman. 2017



A sinopse de Beach Rats é muito simples: o filme aborda a vida de um adolescente de Brooklyn que passa os dias a passear com os amigos, a consumir drogas e a pesquisar online por encontros sexuais com homens. 

Filmes sobre adolescentes problemáticos não faltam e filmes sobre adolescentes com dúvidas acerca da sua sexualidade também não. É verdade que a sinopse do segundo filme de Eliza Hittman tem potencial para afastar os interessados, mas fica o conselho: não se afastem. A sinopse não faz jus ao filme.

Beach Rats não é somente um filme sobre adolescentes nem um filme sobre sexualidade, é muito mais do que isso. A prova maior são os prémios e nomeações que a realizadora recebeu. Hittman venceu o Directing Award no Sundance Film Festival deste ano. Foi também premiada no Montclair Film Festival, no Hamburg Film Festival, no Independent Film Festival of Boston, no L.A. Outfest e nomeada em vários outros.


25/09/2017

Better Things | A genialidade de Louis C.K. e a excelência de Pamela Adlon



[texto original em c7nema]

Criada por Pamela Adlon e Loius C.K., a série FX é uma espécie de comédia autobiográfica. Better Things conta a história de Sam (Pamela Adlon), uma actriz, mãe divorciada que sozinha, cria três filhas. Longe de ter a vida glamourosa de uma actriz de Hollywood, Sam esforça-se para encontrar trabalho de forma a poder pagar as contas e cuidar das três filhas: Max (Mikey Madison), Frankie (Hannah Alligood) e Duke (Olivia Edward). A sua mãe, Phyllis (Celia Imrie), vive ao lado e continua a ser uma presença quase constante na vida da filha e das netas, mas a Phyllis só é permitido aparecer  quando é convidada.

29/08/2017

Fleabag | Temporada 1. A arte da comédia!


... Ou a comédia em torno da tragédia!

Nota da redação: sim, é uma série mais apropriada para o público feminino, no entanto, tenho a certeza que se o mais macho dos machos vir algum episódio ou a totalidade desta primeira temporada da série Amazon, não sofrerá nenhuma espécie de castração por castigo divino.

No minuto em que Frank Underwood usou o seu tempo de antena para falar diretamente com o público, muito mudou. A nossa percepção, interação e empatia com uma personagem não voltou a ser a mesma.

Phoebe Waller-Bridge percebeu isso e escreveu uma série em que a personagem principal dialoga com o espectador, só que, em vez de nos preocuparmos com as lides políticas do mundo contemporâneo, passamos a ter como foco, a vida de uma mulher que quer sobreviver, superar os seus problemas e ter uma vida sexual competente.

A magnífica Waller-Bridge é a autora e protagonista de Fleabag, uma série sobre uma mulher desenfreada que tenta sobreviver numa Londres moderna, enquanto aprende a lidar com a morte da melhor amiga, uma família disfuncional, problemas financeiros e má gestão das relações amorosas.

Para lidar com a vida difícil, Fleabag termina constantemente com o peculiar namorado, Harry (Hugh Skinner) e durante os períodos em que está solteira, dorme com quem lhe apetece de forma a evitar estar só. Fuma, bebe e provoca pessoas, tudo para evitar as dolorosas lembranças que testemunhamos quando vimos os flashbacks – usados como momentos de honestidade viciante. O argumento - escrito de forma exímia - não dá ao espectador um minuto de descanso.








Fleabag pode ser indexada entre as mais conceituadas comédias femininas de cariz sexual mas é mais mordaz e sexual do que Sex and the City e mais politicamente incorrecta do que Girls.

O humor é adulto, usado sem medos ou pudores. As piadas podem até não ser novidade para o público mas a forma como está escrita e filmada nunca antes foi feita em televisão, pelo menos, não com tanto charme envolvido.

Waller-Bridge tem um timing imaculado, uma cara bastante expressiva, um sorriso irónico e uns olhos impressionantes. É o soberbo trabalho da actriz que quando conjugado com a sua mestria na escrita que torna os seis episódios de Fleabag num dos melhores acontecimentos da televisão actual. 

Todo o elenco secundário merece elogios. Todos fazem parte da história e até aqueles que se limitam a entrar em cena para simplesmente estarem sentados no metro ou a carregar o telemóvel no café, fazem a diferença. E depois existem personagens simplesmente intitulados como “Arsehole Guy” ou “Woman in Sex shop”… e dito isto, tirem as vossas próprias conclusões!

Bill Paterson e a genial Olivia Colman são, respetivamente, “Dad” e “Godmother”, a madrasta, na verdade. Este casal são provavelmente os “pais” mais complexos da história da televisão. Se nos primeiros episódios achamos que são maus progenitores, conforme a história avança, vamos percebendo que não são só maus, são maus ao quadrado. Colman é severamente passiva agressiva, e controla a 100% o pai de Fleabag com manipulações tão incrivelmente surreais que rapidamente a tornam numa figura absolutamente horrífica. Olivia Colman é, como habitualmente, genial.

Em Fleabag existem vários tipos de dinâmicas entre as personagens. A personagem principal tanto interage de forma surreal com a família, como com desconhecidos e todas as cenas são desenvolvidas com uma precisão absoluta. Tudo tem um timing impecável e até as cenas que descrevem elementos do passado servem para tecer as personagens de forma eficiente e ininterrupta, sem trair a autenticidade do dia-a-dia da vida de Fleabag.

Fleabag mostra um olhar contemporâneo sobre a vida e ultrapassa o patamar da ficção porque é altamente relacionável. Ao contribuir com uma nova e fresca perspetiva em torno de relações desagradáveis ou com o sofrimento, a série possui um tom singular que, transmitido através de brilhante desempenho da actriz principal, "fala" diretamente connosco, mesmo quando o diálogo direto não acontece. A serie é uma comédia, é uma história crua e directa que retrata de forma intima e intensa, o luto, a solidão e a disfuncionalidade que todos nós, em certos momentos da vida, experienciamos. Com menos ou mais intensidade, todos somos Fleabag!







Que a segunda temporada não tarde em chegar. Quero mais. 



10/06/2017

Harlots | Temporada 1. A intimidade da prostituição!





“1763. London is booming and one in five women makes a living selling sex.”

São estas as primeiras palavras da nova série da Hulu, Harlots e assim, logo nos segundos iniciais, o tema central da série fica esclarecido de forma bastante clara. 

13/05/2017

Opinião ▪ King Arthur: Legend of the Sword | Guy Ritchie. 2017




As boas notícias são: 
- só são necessários cerca de 15 minutos para ver Charlie Hunnam em tronco nu. 
- cenários, banda sonora e sobretudo guarda roupa e acessórios – são deslumbrantes. 

A má: 
- As histórias medievais, romances de cavalaria e folclore em torno da mítica lenda do Rei Artur que todos conhecemos e pelas quais somos fascinados dá lugar um argumento que parece ter sido escrito por J. R. R. Tolkien ou por George R.R. Martin e à qual é acrescentada a alucinação normal da cinematografia de Guy Ritchie

08/05/2017

Opinião ▪ The OA. T1 | Zal Batmanglij. 2016





Se Stranger Things cativou o espectador pela nostalgia e pelas magníficas referências a acontecimentos / objectos de culto, The OA impressiona porque aborda uma das questões mais complexas da Humanidade, a Fé. No entanto, convém que fique claro que The OA não é de todo uma série com associações a igrejas e não há nenhuma abordagem institucional acerca dessa crença.

05/04/2017

Opinião ▪ 20th Century Women | Mike Mills. 2016



The beginning of my writing process is I just try to remember as much stuff as I can and write them down on single 5x7 cards. I don’t think about structure, I don’t think about Final Draft, which is the software you write scripts in, and I’m just compiling, compiling, compiling and I have a character stack and those were the Jamie stuff…. [but] as a guy talking about women, I was very worried and wanted to find where my limitations were and sort of make them part of the piece. And also writing is such an isolating practice, it’s such a horribly isolating practice, I was desperate just to go and meet other people and kind of work in a slightly more journalistic way, and do interviews and try to find little nuggets of details I could insert in my story. … I like that, it’s slightly documentary, slightly journalistic flavor to the writing practice and it gets you out of your little cell.”

– Mike Mills 

22/03/2017

Opinião ▪ Miss Sloane | John Madden. 2016



Elizabeth Sloane (Jessica Chastain) é a melhor, a mais requisitada e a mais bem sucedida lobista de Washington. Conhecida pela determinação, astúcia e pelo histórico de sucesso, Sloane faz tudo para vencer, mas quando recebe como adversário o lóbi mais poderoso da sua carreira (o pró-armas) usa todos os trunfos - por vezes pouco correctos - para tentar superar uma "guerra" quase impossível de vencer.

28/02/2017

Opinião ▪ Moonlight | Barry Jenkins. 2016



“At some point, you’ve got to decide for yourself who you’re gonna be. You can’t let nobody make that decision for you”. 

A sinopse é muito simples: é uma história intemporal de auto-descoberta e de ligações humanas. Moonlight narra a vida de um jovem desde a sua infância até à idade adulta enquanto se esforça para encontrar o seu lugar no mundo.

21/02/2017

Opinião ▪ Fifty Shades Darker | James Foley. 2017



No ano passado, escrevi algures neste blog acerca de Fifty Shades of Grey e constatei que já tinha visto no YouPorn "filmes" com mais argumento, mais cometentes e mais entusiasmantes do que o filme de Sam Taylor-Johnson

13/01/2017

Opinião ● Passengers | Morten Tyldum. 2016




Juntar duas das estrelas mais mediáticas do Cinema actual num filme realizado por um cineasta que teve uma nomeação nos Óscares para Melhor Realizador (com o imenso The Imitation Game), um orçamento de 110 milhões de dólares e um argumento escrito pelo mesmo guionista que escreveu Prometheus para Ridley Scott, era de esperar, pelo menos que o resultado fosse, no mínimo, competente. 

21/06/2016

Opinião ● The Diary of a Teenage Girl | Marielle Heller. 2015


Estamos em 1976, Minnie tem 15 anos, vive em Los Angeles e é obcecada por sexo. É o assunto que domina as suas conversas, desabafos e desenhos.

Quando perde a virgindade e embarca numa relação sexual com o namorado da mãe (20 anos mais velho que ela) a sua lascívia torna-se muito mais complexa.


27/03/2016

Batman v Superman: Dawn of Justice | Zack Snyder. 2016




Prefácio
Podia resumir qualquer opinião com uns prints às scores IMDb ou Rotten Tomatoes, ou então, podia tecer comentários arrasadores ao Ben Affleck só porque sim. Podia ainda gastar teclado a escrever sobre a inexpressividade de Henry Cavill mas infelizmente para muitos não sou aquele tipo de pessoa que usa scores só quando convém, sou grande fã da família Affleck e é impossível falar de inexpressividade de um rosto desenhado meticulosamente por Apolo. 

11/03/2016

Tangerine | Sean Baker. 2015



No início do filme assistimos à reunião (na véspera de Natal) de Alexandra (Mya Taylor) e Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez), melhores amigas e prostitutas transgéneras. Sin-Dee acabou de sair da prisão e está ansiosa por saber novidades. O tema “namorado/chulo” de Dee - Chester (James Ransone) – surge na conversa e Alexandra descai-se com a novidade de que o homem anda a trair a amiga com uma mulher branca cujo nome começa por um D. Esta estrondosa novidade despoleta a fúria de Si-Dee e gera uma verdadeira odisseia. Sin-Dee vai percorrer as ruas de Los Angeles à procura da Desiree ou Dominique ou Destiny ou coisa semelhante. Para preencher a intriga há ainda um personagem cuja história se cruza com a das duas amigas: o taxista arménio Razmik (Karren Karagulian), um homem aparentemente heterossexual mas com uma predilecção secreta por pénis.