08/05/2017

Opinião ▪ The OA. T1 | Zal Batmanglij. 2016





Se Stranger Things cativou o espectador pela nostalgia e pelas magníficas referências a acontecimentos / objectos de culto, The OA impressiona porque aborda uma das questões mais complexas da Humanidade, a Fé. No entanto, convém que fique claro que The OA não é de todo uma série com associações a igrejas e não há nenhuma abordagem institucional acerca dessa crença.

Dito isto, é precisamente esta abordagem à Fé que faz com que a série conquiste ou afaste públicos. Para vermos estes oito capítulos criados por Zal Batmanglij e Brit Marling temos que ter a mente aberta e é obrigatório ter um olhar adulto e crítico perante aquilo que estamos a ver. Alguém que não tenha consciência da sua posição perante a vida e até uma ideia muito concreta sobre a morte, dificilmente perceberá aquilo que The OA nos mostra: ter Fé num momento de circunstâncias intensas.

Brit Marling interpreta uma mulher chamada Prairie Johnson, nascida na Rússia, mas adoptada e criada nos EUA por Abel e Nancy Johnson (Scott Wilson e Alice Krige). Prairie ficou cega depois de um acidente de viação durante a infância (ainda na Rússia). Na adolescência, Prairie desaparece e reaparece sete anos depois, com a visão restaurada. E assim, logo no primeiro episódio as perguntas surgem em catadupa: o que aconteceu? Porque desapareceu e como? Porque é que recuperou a visão? Como e porquê voltou?

Depressa percebemos que ao longo desses sete anos, Prairie e várias outras pessoas de diferentes origens - mas com algo de muito peculiar em comum - foram mantidas numa espécie de laboratório subterrâneo para serem observados e estudados por um cientista interpretado por Jason Isaacs.

Já em casa, Prairie reúne um curioso grupo de pessoas para lhes contar a sua história. Todas as noites, numa casa abandonada, a mulher partilha o seu conto com três jovens do ensino secundário: um problemático rapaz chamado Steve Winchell (Patrick Gibson), um jovem transgénero chamado Buck Vu (Ian Alexander), Alfonso 'French' Sosa (Brandon Perea), um jovem com uma vida familiar bastante complicada e uma professora nervosa, introvertida mas muito amiga apelidada de BBA, diminutivo de Betty Broderick-Allen (Phyllis Smith).













À noite, Prairie conta detalhes da sua vida. Começa pela sua vida da Rússia e depois conta o que passou ao longo dos sete anos em que foi mantida em cativeiro, numa prisão de vidro situada numa antiga mina. No início, existem quatro presos, depois cinco e com a adição do novo elemento, a ideia que a fuga pode ser possível começa a ganhar forma. O mais interessante nisto tudo é que nós enquanto espectadores continuamos com dúvidas. Muitas dúvidas: qual era o propósito deste cativeiro? Como é que a sua infância na Rússia se relaciona com sua vida nos EUA antes e depois do seu rapto? A personagem Jason Isaacs é um cientista legítimo ou algum tipo de maníaco? Qual é a conexão da Prairie com os outros prisioneiros? Por que é necessário que Prairie conte os capítulos da sua história a quatro estranhos e porquê apenas quatro pessoas? É apenas uma maneira de narrar um flashback? E acima de tudo, o que é OA significa?

Este elencado de perguntas é só um exemplo das dúvidas que assolam o expectador e que cativam a nossa atenção.  Pelo meio, surgem outras questões, incluindo a necessidade que as personagens têm em  executar uma série de movimentos corporais numa ordem precisa. No início, estes movimentos parecem ridículos, no entanto, quando os movimentos ritualizados são executados, sobretudo nas cenas finais da série, somos assombrados pela emoção e pela perfeição do momento. 

Insisto, The OA não é fácil. Como já mencionei, a série está repleta de dúvidas, traços de carácter estranho, referências esquivas e uma narrativa nem sempre linear. Sim, um espectador com menos paciência pode ficar irritado. Mas, quem gosta de ser desafiado, continua a ver. Também nós somos um dos ouvintes das histórias nocturnas de Prairie. O oitavo e ultimo episódio fundamenta muito daquilo que vimos, mas ficamos com um sentimento parcial de satisfação, por falta de uma palavra melhor. É um desenlace desenfreado de forma intencional e que está de acordo com o tom e o propósito de toda a série.

Marling e Batmanglij (que realiza) não criaram a perfeição, mas criaram algo muito eficaz. Muitos espectadores desistirão de The OA no primeiro episódio. Outros, vão ver a série até ao fim e vão odiá-la pela pretensão. Mas aqueles que, como eu ficaram fascinados ao primeiro segundo, vão gostar de ficar com dúvidas e são estas pontas soltas que nos levam a uma consideração da mortalidade, da vida após a morte, a conectividade da vida e a possível relação dos planos físico e metafísico. Estes oito episódios podem não ser para todos, no entanto, se somos intrigados pela profundidade, pelo mistério e beleza com que a história é contada, queremos mais.

The OA é uma das séries mais significativas de 2016. O trabalho de Marling e Batmanglij é bom. The OA abala a nossa percepção da realidade. É poética, surreal e feita com uma fotografia assombrosa - graças ao trabalho de Lol Crawley. Ouso mesmo dizer que, à sua maneira peculiar e distorcida, é uma obra de arte.



“I want you to close your eyes. I want you to imagine everything 
I tell you as if you’re there yourself. As if you are with me. As if you are me.” 



Sem comentários:

Enviar um comentário