21/02/2018

Opinião ▪ I, Tonya | Craig Gillespie. 2017



A maioria das biografias tendem a ser exercícios laudatórios. Mostram pessoas que superaram adversidades, que triunfam perante perseguições, que venceram guerras, disputas políticas ou que superaram doenças ou dependências. Ora bem, I, Tonya vai muito além de tudo isto. Esqueçam tudo o que até hoje sabiam ou julgavam saber sobre biografias. Se, habitualmente, uma narrativa biográfica celebra a história ou vida de alguém, no filme de Craig Gillespie o intuito é dado logo no início do filme: “You either love Tonya or you’re not a big fan. Kind of like how people either love America or they’re not a big fan. And Tonya was very American.


Com isto, não pensem que se quer dizer que o filme celebra a América, não, não é isso. O filme revela a história de Tonya Harding como algo profundamente americano. É uma mescla feita de guerra de classes, pobreza, misoginia e abuso, de uma cultura voraz obcecada por celebridades, de violência e tudo isto é envolto na máxima de que com muito trabalho é possível alcançar o que se deseja. 

Mais do que um exercício biográfico, I, Tonya é uma caricatura real de uma mulher grosseira, pouco inteligente, que sofreu e infligiu abusos e que através de talento nato, alcançou o patamar de atleta olímpica mas que sem perceber bem porquê ou como, perdeu tudo. 

A história de Tonya Harding é tumultuosa e dramática. Para aqueles que não sabem, Harding foi uma patinadora de excelência. Foi a primeira americana a fazer um triple axel numa competição da especialidade. Com muito esforço e dedicação pessoal venceu provas e representou os EUA nos Jogos Olímpicos. Depois de um desenvolvimento surreal, viu-se envolvida num escândalo que o seu próprio marido orquestrou: um ataque a Nancy Kerrigan (a sua maior adversária). Harding foi considerada culpada no envolvimento desta agressão e por ordem do Tribunal, foi proibida de voltar a exercer patinagem. O filme de Craig Gillespie conta esta história com grande veracidade sem nunca ser brando na abordagem. 

Margot Robbie fez um trabalho incrível. Encarnar uma figura polémica e peculiar foi certamente um trabalho muito complexo mas é bastante óbvio que a atriz fez muita investigação. Harding é uma personagem complexa, porque ao mesmo tempo que é dura, é manipulada e ao mesmo tempo que é forte, é fraca. Durante toda a infância e adolescência foi vítima de abuso por parte da mãe e depois por parte do marido. Para a atleta, as agressões eram representações de amor. No entanto, e sobretudo quando comparada com outras personagens, o filme consegue dar a Tonya alguma humanidade e talvez a partir de agora deixe de ser uma das mulheres mais odiadas dos EUA.






Cabe a Allison Janney interpretar o papel da odiosa mãe da atleta, LaVona Goldene e a Sebastian Stan coube o papel de dar uma “segunda vida” a Jeff Gillooly, o ex-marido. É caso para dizer que é fácil adorar o elenco e ainda mais fácil odiar as personagens, o que é sinónimo de prova superada. Stan ficou fora da corrida, mas as interpretações colossais, valeram as nomeações de Margot e Allison aos Oscars.

Nas cenas em que Harding faz os seus milagres na pista de gelo, percebemos claramente que a cara de Robbie foi colocada num corpo que não é o seu, mas isso não prejudica a cinematografia do filme. É de louvar toda a equipa envolvida neste projeto. O filme faz um brilhante trabalho ao convencer o espectador que os atores são as personagens reais - até na recreação das entrevistas documentais que são “encaixadas” ao longo de toda a narrativa.

É bastante óbvio que existiu uma investigação profunda e que tentaram ser os mais precisos possíveis. Foram usadas imagens reais e o guarda-roupa combinou na perfeição com as roupas que Harding usou na vida real. O trabalho de maquiagem e caracterização é igualmente soberbo. Podemos achar que alguns detalhes foram exagerados ou até divagar sobre o facto de que realmente Tonya conspirou com o seu ex-marido no ataque a Kerrigan mas independentemente dessa apreciação, é inegável que o realizador e toda a equipa do filme trabalhou tanto quanto possível para obter precisão. 

I, Tonya é surreal. Surreal no bom sentido. É impressionante imaginar que tudo aquilo aconteceu mesmo e que as personagens que Margot Robbie, Sebastian Stan e Allison Janney interpretam eram /são mesmo assim. Obviamente que há exageros mas se perderem tempo e “investigarem” na internet fotografias, notícias e vídeos sobre a história que o filme conta, percebem claramente que, neste caso, a ficção imitou e muito bem a vida real. 



“I thought being famous was going to be fun. I was loved, for a minute. Then I was hated, and I was just a punch line. It was like being abused all over, again. Only this time, it was by you. All you. You’re all my attackers, too.” 

-- Trailer --



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